Relato sobre a experiência com o espetáculo
"A Intrépida Viagem de Um Homem e Um Peixe"
08 de março de 2013 - Instituto Cervantes
Por Érica Lopes
Atmosfera é a palavra que me vem à mente quando penso no espetáculo "A Intrépida Viagem de Um Homem e Um Peixe", que assisti na última sexta-feira, dia 08 de março, no Cervantes.
Atmosfera maravilhosamente criada desde a nossa chegada no instituto até a entrada no teatro e daí até o final do espetáculo.
Descíamos em pequenos grupos, conduzidos por um funcionário do teatro, por um elevador e, ao dele sair, nos deparávamos com um foyer escuro, iluminado apenas por um pisca-pisca azul que se espalhava por toda a sala. O público demonstrava ansiedade. Não sabíamos de a apresentação seria ali mesmo ou se seríamos conduzidos a outro espaço.
Atentos (e até buscando) a interação com materialidades diversas, eu e Ronie vimos, em um canto da sala até então despercebido pelos demais, uma mala aberta com um chapéu, programas do espetáculo e alguns livros com título homônimo. Começamos a folhear. Algumas pessoas, vendo isso, começaram a chegar também. Os livros foram passando de mão em mão e todos se perguntavam se estariam à venda.
De repente, um rapaz com uma cartola sai de uma lateral do espaço e começa a interagir com o público. Depois de aglomerar a todos (apenas 30 pessoas por sessão), retira a cartola e pede a Hanna (filha de Ronie e uma das poucas crianças presentes) que retire algo de dentro. Hanna pega e é uma bola de linha. O rapaz dá a ponta da linha para que ela segure e assim a conduz para dentro da sala de espetáculo. Só ela.
Pouco tempo depois, abre-se uma pequena brecha na porta e a bola de linha rola pelo chão. O rapaz segura a ponta da linha agachado no chão pela fresta da porta. Seguro a bola e sou assim também conduzida ao interior da sala. os demais entram após algum tempo.
Dentro do teatro, penumbra. A iluminação vinha apenas de diversos pisca-piscas espalhados pela sala. Desta vez, azuis, vermelhos e brancos. Um cenário com muitos objetos. Um ator, sentado, perguntou meu nome e assim foi fazendo com algumas pessoas até que todos entrassem e se acomodassem.
O espetáculo conta a história de ECO, único morador jovem de uma vila onde ninguém tinha menos de 70 anos e de onde nenhum morador jamais havia saído. Um dia, resolvem mandar ECO para ver o mundo lá fora e voltar com todas as respostas.
A trajetória de ECO é narrada com grande sutileza por Jesus Nieto, único ator em cena no espetáculo, utilizando objetos que ilustram a narração e nela imprimem com maestria momentos de pausa e de poesia.
Em alguns momentos o público é convidado a interagir com a narrativa, o que envolve ainda mais os presentes. O fato de a peça ser em espanhol não chegou, para mim, a atrapalhar a compreensão.
O espetáculo é muito belo e sensível. O condutor nos leva com ECO em sua viagem, no seu percurso pela vida até o seu último banho, quando a realidade do fim do espetáculo e da efemeridade da vida nos traz de volta aos nossos mundos.
Ao fim do espetáculo, não sem um percurso que daria um texto à parte, consegui adquirir um dos livros que, sim, estavam à venda, e sim, acabaram num piscar de olhos. O livro também é muito belo e chamou minha atenção o fato de que não foi ele que inspirou o espetáculo, mas o contrário.
Jesús Nieto prometeu voltar a Salvador e, nessa próxima vez, com o espetáculo em Português. Estarei lá e sugiro que quem puder não a perca a chance de assistir.
* Mais fotos da apresentação podem ser vistas no link Materialidades em Cena.