Por Marina Ramos
Licencianda em Teatro da UFBA
Desde já revelo que este texto é uma união de experiências dentro de algumas vivências artísticas no Festival EmComTato, no curso livre do Museu de Arte Moderna da Bahia juntamente com a comunidade do Solar do Unhão, uma certa experiência no grupo Coletivo Nozes e a pesquisa com o grupo CELULA, ligado diretamente ao meu recorte.
16 de setembro de 2013. Chegava eu em
uma cidade do interior da Bahia mais precisamente em Palmeiras, na Chapada
Diamantina. Já conhecendo alguns lugares dessa grande Diamantina, não fazia
ideia do quão mágico seria dividir a experiência nova de um Festival de Dança com pessoas diferentes, aparentemente
desconhecidas de todos os cantos do Brasil e do mundo, assim como moradores e
nativos da cidade de Palmeiras, um sertão aflorado como costumei chamar.
O tão comentado festival se chamava
EmComTato Festival, organizado pelo pesquisador de Contato Improvisação Hugo
Leonardo, e em sua terceira edição já contava com uma grande produção. O
EmComTato nada mais é do que um espaço para se conhecer, explorar e experimentar
uma técnica da dança chamada Contact
Improvisation (Contato Improvisação) que surgiu no início dos anos 70, a
princípio nos EUA, e logo difundido e utilizada na Europa e outros países. Um grupo de dançarinos e coreógrafos se uniram
e começaram a indagar todos os movimentos tão metódicos e eretos da dança,
começando então a testar, ou melhor, improvisar movimentos. O C.I. nasce dentro
de um contexto de mudanças sólidas nos paradigmas da dança, originando uma
forma de dança espontânea, física e sensorial na qual duas ou mais pessoas
brincam com o toque e o apoio como base para um diálogo de movimento improvisado.
Dessa forma o improviso corporal testa gravidade com os carregamentos e pressão
de corpos, atrito, com o toque, energia de contato e apenas o dançar. O contato
é conhecido como a “dança social” onde qualquer um pode dançar, afinal, a busca
do contato é apenas o toque, é a aproximação de corpos. Busca também a dessexualização
deste toque, para que possamos nos conhecer mais enquanto corpo e mente e
conhecer o corpo do outro; um jogo de percepção, cuidado e sensação. Durante o
festival foram oferecidas várias oficinas
de contato e suas vertentes com crianças, adolescentes e adultos, além de
mostras abertas de vídeos, filmes e fotografias das outras edições do
EmComTato.
A
relação intensa do festival com a cidade me fez pensar muito no contato com a
comunidade do Solar do Unhão onde vínhamos experienciando o projeto Entre
Muros: Memórias Coletivas/Curso Livre UFBA/MAM-BA
2013 e o quanto estas duas realidades estavam próximas. A importante
chegada do EmComTato que buscou se relacionar com a população de Palmeiras,
unindo e oferecendo o mais que merecido conhecimento sobre a temática do
festival, as vivências dos professores, as histórias que todos carregaram, nossas
memórias, sensações, etc.. Percebendo tudo isso me senti muito emocionada em estar naquele lugar. No dia da minha chegada e durante toda a semana que
passei dividindo vivências com todos, seja nos intensivões de aulas, seja nas
jams de contato (espaço onde dançamos livremente), fui me sentindo cada vez
mais fazendo parte daquele lugar. Durante
a semana tive a oportunidade de conhecer as crianças que fizeram parte das
aulas há um mês com alguns dos professores. No caso específico do trabalho de contato com crianças,
obtive a experiência de observar a oficina dos professores Ana Luiza Reis e
Ricardo Neves, percebi no desenvolvimento das atividades a presença de
materialidades como estímulo para a prática do contato improvisação. Foram
utilizados tecidos, bexiga, pedaços de
canos, cordas, elásticos, músicas, contação de histórias e o próprio corpo do
outro. Também observei outra oficina nomeada “Jam dos Guaguas”, um momento
de diversidade etária onde crianças e adultos dançavam juntos utilizando a
bexiga como intermédio de diálogo entre ambos.
(fotos da produção do EmComTato na Jam dos “Guagas”)
(fotos retirada do video “MOSTRA DE PROCESSO EMCOMTATO FESTIVAL 2013” )
Com esta experiência tive a
oportunidade de compreender o poder da dança pessoal, na qual, a partir de
todos estes estímulos crianças e adultos buscaram na oficina também sua
performance enquanto ser dançante, enquanto alguém que descobre, após o jogo
com os objetos, transformar a sua atmosfera para a criação. No entanto, percebo
que este jogo de estímulos/materialidade sugere um diálogo com algo que se transforma durante a criação da cena e de suas
possibilidades. No caso específico do festival EmComTato nas oficinas citadas,
a materialidade aparece como condutora dentro do recorte, dentro do grupo, conforme
ressalta a autora Fayga Ostrower no livro Criatividade
e Processos de criação “(...) através delas, é que surgem sugestões para
prosseguir um trabalho e mesmo para se ampliá-lo em direções novas.” (1987, p.32).
Nesse contexto surge também como uma possibilidade de explorar a criatividade
dos alunos dentro da sala de aula.
A utilização dos objetos citados
(tecidos, canos, etc.) no C.I., são estímulos para desenvolver a expressão
corporal das crianças e dos adolescentes, além de tornar o processo criativo um
tanto quanto livre e flexibilizado, porém, direcionado ao objetivo. Percebo
também que o resultado do processo pode não ser de imediato, pode ser demorado
e que aquelas crianças/adolescentes precisam muito mais do que uma única
vivência de C.I. e materialidades para desenvolver a expressão corporal dos
mesmos. Contudo a união de ambas, de fato, na experiência do EmComTato revelou
percepções e resinificações de objetos, o cano de pvc se tranformou em uma
luneta e os movimentos de C.I. demonstraram o movimento dentro de um barco. Os
tecidos envolvidos nos corpos era o mar da história contada no início da aula
por Ana Luíza, a mediadora. Criou-se então momentos de autoconhecimento e
conhecimento do outro, do cuidar de si para o outro, momentos de expressividade
e ressignificação dos materiais utilizados.
Ainda em Palmeiras me voltei algumas vezes
a pensar no projeto MUSAS, que tem sua sede na comunidade Solar do Unhão que
recebeu alguns pesquisadores do PIBIC CELULA através do projeto
Entre Muros: Memórias Coletivas. Pensava na
saída anunciada do MUSAS da comunidade, um grupo que tanto contribuiu e se
alimentou do Solar, um grupo que criou uma residência artística na comunidade e
que atualmente luta para prosseguir estes trabalhos com a população de Salvador.
Pensei na proximidade causada pelos estudantes, professores e pesquisadores do
CELULA,com a comunidade e também com sua relação com outros estudantes de
outras áreas e cursos.
(foto tirada por mim em um dos experimentos do Entre Muros. De fundo um dos grafites do MUSAS)
Voltei-me a importância de um antigo trabalho pessoal com
o Coletivo Nozes, um grupo de artistas de rua, o qual faço parte, com um
projeto social com os nativos e chegados da Aldeia Hippie de Arembepe, um
processo que deve ter continuidade para que haja transformação, para que
principalmente as crianças de lá possam ter vivências com as artes sempre.
(foto do projeto Pintando TodoMundo do Coletivo Nozes)
Todas estas percepções serviram como compreensão
do poder da arte na sociedade. O quanto está sendo feito e não sabemos, o
quanto ela possibilita diálogos entre mundos, o quanto ela pode entrar em
contato interno e externo e simplesmente transformar seus espaços como
ambientes de mais alegrias, diálogos, histórias (não apenas uma) e vivências.
Os processos criativos devem sempre continuar, de alguma forma, deve-se tocar o
próximo para que se possa prosseguir. Enquanto isso está sendo feito, prossigo
com uma frase dita por um menino de sete anos no último dia do festival,
enquanto alguns se emocionavam bastante com toda experiência: “Eu quero
agradecer por existir com vocês, eu quero agradecer por isso, porque eu acho
que sem todo mundo junto não teríamos energia para dançar e nem para que
houvesse lua cheia. O amor é importante. Eu amo o contato da gente, de todo
mundo.”.
Referências
OSTROWER, Fayga. Criatividade e processos de criação/
Fayga Ostrower. - Petrópoli, Vozes, 1987.
“Contato Improvisação – Origens, influências e evoluções. Gens,
fluências e tons” de
Fernando Neder (Trabalho desenvolvido para a disciplina Evolução da Dança,
UNIRIO – CLA, 2005.01).
www.contactinrio.jimdo.com Acessado em 29 de setembro de 2014
www.emcomtato.com Acessado em 30 de setembro de 2014
www.coletivonozes.blogspot.com Acessada em 30 de setembro de 2014







