quinta-feira, 30 de outubro de 2014

A ludicidade proposta pelo espaço no espetáculo As Confrarias




No dia 12 de setembro de 2014 tive a oportunidade de assistir ao espetáculo As Confrarias com direção de Paulo Cunha, no palco do Teatro Martim Gonçalves na Escola de Teatro da UFBA.
As Confrarias, 43ª montagem da Cia de Teatro da UFBA, que esteve em temporada do final de agosto a meados de outubro, adota esteticamente conceitos e procedimentos épicos caros ao teatro de inspiração brechtiana (como a utilização do gestos e de sons) e pós-brechtiana (como elementos do sistema coringa de Augusto Boal e da narratividade contemporânea, recorrendo inclusive a técnicas sofisticadas de projeção de imagens estáticas e em movimento). Para o devido toque de contemporaneidade, a estes se associarão ainda, elementos de natureza ritual/performativa, que adicionarão, na dosagem certa e no momento correto, um toque não ficcional de contemporaneidade ao universo dramatúrgico de Jorge de Andrade para realizarmos com o enterro de José, o desenterro, a celebração da memória - a luta contra a efemeridade humana, do ator e de sua arte – numa homenagem aos Josés da realidade, que como o José não devem ser deletados de nossos corações e mentes. (texto retirado da página virtual do espetáculo)
Uma mãe desesperada tenta encontrar uma igreja/confraria onde possa realizar o enterro de seu filho, que escolheu ser ator e que por anos relacionou-se sexualmente com uma negra, atos questionados e repudiados por diversas confrarias/religiões.
Durante o espetáculo este percurso é evidenciado ao público e as ações realizadas pelo rapaz também vão sendo desvendadas, com muitos atores em palco, As confrarias nos faz rir, chorar e tremer diante da realidade critica exposta a cerca dos interesses religiosos. Em quase 2h e 30min de espetáculo, acompanhamos música ao vivo, além de atores/atrizes completos (as) que dançam, cantam, atuam, tocam, operam luz, além de subir e descer sem parar andaimes e escadas que compõem o cenário.
E é nele, o cenário, que gostaria de me ater; há muito tempo tenho tentando compreender ludicidade para além do conceito de brincar, eis que presencio o lúdico no palco, todavia impregnado num cenário que possibilita aos atores saídas, entradas, focos, participação no jogo de cena o tempo inteiro.
Enquanto expectadora, fiquei extasiada quando estava atenta a cena no centro do palco e surgiram mãos, pés, pernas, personagens nas laterais, no cantos, em planos distintos (baixo, médio e alto).
Assim como o tapete, citado anteriormente, que era enrolado e desenrolado servindo de “ninho” de amor para José e a Negra, as escadas ao fundo da cena (característica espacial bem peculiar dos espetáculos dirigidos por Paulo Cunha) que se tornaram o cenário para as confrarias discutirem, para os atores darem destaque a algo ou a alguém, dentre outras funções. A mobilidade no palco me soou com um aspecto lúdico, a dinâmica estabelecida tornou tudo mais leve, inclusive a nudez, tratada com tanta naturalidade pelos atores e pelo diretor.
Para nos ajudar a entender um pouco a construção deste cenário, do qual fiquei imensamente encantada, a produção do espetáculo criou um vídeo: https://www.youtube.com/watch?v=RKNtrjSX6hM#t=49 (acessado em 18 de setembro de 2014).

Um espetáculo de poucas cores e de muitos movimentos; poucos objetos, todavia os poucos existentes extremamente representativos, como o saco carregado por José, a madeira carregada por seu pai, ou o tapete carregado pela negra, uma mesa que serviu de apoio para que os atores iniciassem o espetáculo, com uma coreografia, e que também serviu para compor outras cenas. Uma maquiagem do teatro moderno, escancarada desde muito antes com Brecht e seus refletores a mostra, e eles estavam!

A memória histórica e a musicalidade do espetáculo A comida de Nzinga


[...] Signos, materiais, cores, energia, força nas ações, sonoridades, estética, movimento, história, memória, riqueza, poder […], São algumas das palavras que traduzem a recepção do espetáculo que tive no dia 13 de setembro de 2014, a oportunidade de assistir “A Comida de Nzinga” no palco do Teatro SESC – Pelourinho.


O espetáculo “A comida de Nzinga” narra a vida de uma das maiores rainhas negras da história, a rainha Nzinga de Matamba, do séc XVI. Com texto de Aninha Franco e Marcos Dias, e direção de Rita Assemany. (trecho retirado da página virtual do espetáculo).
Num imaginário cheio de cores e força, o espetáculo traz uma estética onde tudo em cena constitui uma atmosfera sonora, desde abanadores, canuites, sapatos e o próprio corpo dos atores. Os objetos em cena simbolizam o povo, a hierárquia e a força de mulheres que se esgotam para parir novos guerreiros. Gamelas são barrigas, tecidos são bebês, ou simbolizam transição de tempo, bastões são armas/instrumentos, berimbais trazem a disputa da capoeira sem a luta corporal.
Os homens brincam com o milho na peneira, e enquanto combiçam verbalmente a beleza e a força de Nzinga, os grãos são passados de peneira a peneira produzindo sons que nos instigam a imaginação.
A beleza do espetáculo está nas roupas, nas construções textuais bem costuradas com o contexto histórico e com a teatralidade das ações. A materialidade é a constituinte de todo o espetáculo, de novas ações, produto que pede lapidação e que indica criação.
Um espetáculo em que sons e falas misturam-se, e os corpos unem-se prol a beleza de contar e de expor uma memória histórica de maneira prosaica e lúdica.



Por: Joseane Santana