No
dia 12 de setembro de 2014 tive a oportunidade de assistir ao
espetáculo As Confrarias com direção de Paulo Cunha, no palco do
Teatro Martim Gonçalves na Escola de Teatro da UFBA.
As
Confrarias, 43ª montagem da Cia de Teatro da UFBA, que esteve em
temporada do final de agosto a meados de outubro, adota esteticamente
conceitos e procedimentos épicos caros ao teatro de inspiração
brechtiana (como a utilização do gestos e de sons) e pós-brechtiana
(como elementos do sistema coringa de Augusto Boal e da narratividade
contemporânea, recorrendo inclusive a técnicas sofisticadas de
projeção de imagens estáticas e em movimento). Para o devido toque
de contemporaneidade, a estes se associarão ainda, elementos de
natureza ritual/performativa, que adicionarão, na dosagem certa e no
momento correto, um toque não ficcional de contemporaneidade ao
universo dramatúrgico de Jorge de Andrade para realizarmos com o
enterro de José, o desenterro, a celebração da memória - a luta
contra a efemeridade humana, do ator e de sua arte – numa homenagem
aos Josés da realidade, que como o José não devem ser deletados de
nossos corações e mentes. (texto retirado da página virtual do
espetáculo)
Uma
mãe desesperada tenta encontrar uma igreja/confraria onde possa
realizar o enterro de seu filho, que escolheu ser ator e que por anos
relacionou-se sexualmente com uma negra, atos questionados e
repudiados por diversas confrarias/religiões.
Durante
o espetáculo este percurso é evidenciado ao público e as ações
realizadas pelo rapaz também vão sendo desvendadas, com muitos
atores em palco, As confrarias nos faz rir, chorar e tremer diante da
realidade critica exposta a cerca dos interesses religiosos. Em quase
2h e 30min de espetáculo, acompanhamos música ao vivo, além de
atores/atrizes completos (as) que dançam, cantam, atuam, tocam,
operam luz, além de subir e descer sem parar andaimes e escadas que
compõem o cenário.
E
é nele, o cenário, que gostaria de me ater; há muito tempo tenho
tentando compreender ludicidade para
além do conceito de brincar, eis que presencio o lúdico no palco,
todavia impregnado num cenário que possibilita
aos atores saídas, entradas,
focos, participação no jogo de cena o tempo inteiro.
Enquanto
expectadora, fiquei extasiada quando estava atenta a cena no centro
do palco e surgiram mãos, pés, pernas, personagens nas laterais, no
cantos, em planos distintos (baixo,
médio e alto).
Assim
como o tapete, citado anteriormente, que era enrolado e desenrolado
servindo de “ninho” de amor para José e a
Negra, as escadas ao fundo da cena (característica espacial
bem peculiar dos espetáculos dirigidos por Paulo Cunha) que se
tornaram o cenário para as confrarias discutirem, para os atores
darem destaque a algo ou a alguém, dentre outras funções. A
mobilidade no palco me soou com um aspecto lúdico, a dinâmica
estabelecida tornou tudo mais leve, inclusive a nudez, tratada com
tanta naturalidade pelos atores e pelo diretor.
Para
nos ajudar a entender um pouco a construção deste cenário, do qual
fiquei imensamente encantada, a produção do espetáculo criou um
vídeo: https://www.youtube.com/watch?v=RKNtrjSX6hM#t=49
(acessado em 18 de setembro de 2014).
Um
espetáculo de poucas cores e de muitos movimentos; poucos objetos,
todavia os poucos existentes extremamente representativos, como o
saco carregado por José, a madeira carregada por seu pai, ou o
tapete carregado pela negra, uma mesa que serviu de apoio para que os
atores iniciassem o espetáculo, com uma coreografia, e que também
serviu para compor outras cenas. Uma maquiagem do teatro moderno,
escancarada desde muito antes com Brecht e seus refletores a mostra,
e eles estavam!


