RELATO SOBRE A PEÇA "A
INTRÉPIDA VIAGEM DE UM HOMEM E UM PEIXE"
por Roniere Silva
Descemos no
elevador e nos defrontamos com um ambiente repleto de luzes azuis e uma caixa
com programas e livros sobre a peça, sons distantes. Não sabíamos se este momento já fazia parte
da apresentação. O público chegava aos poucos em grupos de cinco pessoas que
desciam por esse elevador que possuía estrutura de acrílico e vista para a
Bahia de Todos os Santos. O relógio marcava 17h30min e a luz que vinha do
elevador invadia o ambiente de tempos em tempos proporcionando uma
materialidade de luz natural.
Um
homem cabeludo e com chapéu aparece com cara muito simpática, mas sem
pronunciar uma única palavra. Ele sai de uma porta que parecia uma parede comum
branca, estávamos no Foyer e já envolvidos na atmosfera cênica que aquele
trabalho buscava estabelecer. O homem com uma bola de barbante nas mãos entrega
a uma criança – Hanna, por acaso minha filha – que ele conduz sozinha para
dentro do teatro, mas nós não sabíamos se era isso mesmo. Depois escolheu dois
adultos e também levou e assim sucessivamente até que o público ocupasse toda
plateia.
O
homem entra numa espécie de caixa projetora de imagens e que também possibilita
o acionamento de vários materiais – e são muitos – da cena que interage com
outro ator que conta a história de um país apenas habitado por idosos. Nenhum
elemento cênico é gratuito, vários bonecos de arame que na verdade era um só
personagem em diferentes fases de sua vida ou ações. Ações que iam desde
deitar-se – com a manipulação do ator que aparecia no palco – em uma pequenina
cama que subia e descia aos olhos de todos até o momento em que o boneco grande
de arame tomava banho numa bacia grande, este ser é sensível e ganha vida na
história, percebe-se seu coração. O material é mesmo sem vida?
Chama
a atenção a sombra projetada do primeiro ator e imagens de água corrente, um
ser – tartaruga de brinquedo – e cores em expansão nessa água. Tudo levava a
crer que a projeção vinha de um suposto datashow colocado por dentro da caixa
no cenário que possuía a origem e efeito da projeção das imagens. Ao fim da
peça, que foi excelente, para nossa surpresa era o antigo retroprojetor com uma
travessa de vidro sobreposta, água jogada devagarinho dentro da travessa e
pingos de tinta simples e ainda uma tartaruguinha made in china que rodopiava
dentro da água. Saímos curiosos e felizes pelo reconhecimento de experimentos
feitos recentemente em nossas pesquisas. Sei que as impressões foram as
melhores possíveis, uma vez que nos identificamos em termos de processo de
criação.