Protágoras foi um desses criativos sofistas. Contava-se dele uma história
que fazia seus interlocutores pensarem de verdade, a fundo, sem
repetir frases feitas e conceitos estabelecidos pelos aristocratas, que não
permitiam o pensamento livre, isto é, não permitiam pensar.
"O jovem Euathlus queria ser seu aluno e foi procurá-lo. Protágoras,
era grande orador, portanto, advogado. Como não tinha dinheiro,
o aluno propôs pagar suas aulas no fim do curso, com o salário que
receberia pela sua primeira vitória em seu primeiro julgamento.
Protágoras aceitou. No meio do ano, o aluno desistiu e foi-se embora.
Protágoras reclamou em juízo o pagamento dos serviços que já lhe
havia prestado como professor, e o aluno foi trazido aos tribunais
para se defender.
O aluno recusou-se a pagar alegando que não havia terminado
o curso nem ganho qualquer causa e que, portanto, a obrigação de
pagamento não existia. O juiz lhe deu ganho de causa.
Protágoras retornou ao combate e afirmou que, tendo ele,
Protágoras, perdido a causa, quem a ganhara havia sido seu exaluno,
que, em tão pouco tempo, tanto aprendera. Portando, como
ganhador de sua primeira causa, o aluno deveria pagar.
O juiz pensou, pesou... olhou os dois lados da questão... paga ou
não paga? Examinou bem... e... o que pensaria você, leitor?
Diga lá – eu não vou ajudar em nada: pense com sua cabeça,
como aconselhava Protágoras!"
(BOAL, Augusto. A Estética do Oprimido. p. 124,125)