terça-feira, 23 de junho de 2015

Divagações sobre as curiosas semelhanças entre amor e arte.

Arte é amor. Sei, sabemos, que a palavra amor está desgastada pelo uso abusivo que dela se faz, pelas banalidades que dela se diz. O fenômeno a que essa palavra se refere, no entanto, continua existindo. Nunca em estado puro – pureza não existe! –, mas amalgamado com o ódio, a inveja, necessidade, posse, violência, e todos os complexos catalogados pela psicologia. Esse fenômeno, essa intensa atração multifacetada, existe sim! Eis a prova: eu amo! Amar é uma forma de arte, e o amante sempre algo de artista tem; arte é amor no sentido em que, sem essa atração que sente o sujeito pelo objeto que também é sujeito, ela, a arte, não existiria. Este livro é minha arte: sem o amor que por ele sinto, ele não existiria ou, pelo menos, não na forma que aqui o tenho fabricado. No amor e na arte, a única constante é a inconstância. Ao contrário do que se diz, o amor não é um encontro: é uma perseguição! Aquele ou aquela que está sempre mudando persegue aquela ou aquele que nunca é igual a si mesmo. O amor não oferece nenhuma garantia de estabilidade, como sabemos e temos provado. Perdoem-me o lugar-comum, mas, da mesma forma que devemos cultivar a arte com amor, o cultivo do amor é uma arte.

Augusto Boal.

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