Arte é amor. Sei, sabemos, que a
palavra amor está desgastada pelo uso abusivo que dela se faz, pelas
banalidades que dela se diz. O fenômeno a que essa palavra se refere, no
entanto, continua existindo. Nunca em estado puro – pureza não existe! –, mas
amalgamado com o ódio, a inveja, necessidade, posse, violência, e todos os
complexos catalogados pela psicologia. Esse fenômeno, essa intensa atração
multifacetada, existe sim! Eis a prova: eu amo! Amar é uma forma de arte, e o
amante sempre algo de artista tem; arte é amor no sentido em que, sem essa
atração que sente o sujeito pelo objeto que também é sujeito, ela, a arte, não
existiria. Este livro é minha arte: sem o amor que por ele sinto, ele não
existiria ou, pelo menos, não na forma que aqui o tenho fabricado. No amor e na arte, a única
constante é a inconstância. Ao contrário do que se diz, o amor não é um
encontro: é uma perseguição! Aquele ou aquela que está sempre mudando persegue
aquela ou aquele que nunca é igual a si mesmo. O amor não oferece nenhuma
garantia de estabilidade, como sabemos e temos provado. Perdoem-me o
lugar-comum, mas, da mesma forma que devemos cultivar a arte com amor, o
cultivo do amor é uma arte.
Augusto Boal.
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