terça-feira, 23 de junho de 2015

Quem sou eu, aquele que atravessa o rio?

Tudo é trânsito neste mundo – cada um de nós e cada império, Romano ou dos Mil Anos; cada nação e o mapa-múndi – tudo muda: eu mesmo, quando me nomeiam Augusto Boal. Qual? Sou quem fui antes de escrever esta última linha ou aquele que ainda não escreveu a próxima? Sou um rio de Crátilo. Ninguém pode entrar no mesmo rio duas vezes: na segunda, já serão outras águas que por ele estarão rolando, já não será o mesmo rio. Ninguém pode atravessar o mesmo rio sequer uma única vez, pois que as águas estarão sempre em movimento: em que água estará entrando? Em mim, correm águas que não corriam. Outras correram e jamais voltarão rio acima – escondem-se no mar. Ninguém pode me ver duas vezes como sou em cada instante fugaz da minha vida, como fugazes são todos os instantes... e a vida. Jamais serei o mesmo em cada segundo que me foge. Aqueles que me veem agora jamais serão iguais a si mesmos em dois segundos da trajetória de seus caminhos. Não sou: estou sendo. Caminhante, sou devir. Não estou: vim e vou. Hesito: para onde? Escolho meu caminho, se puder; sigo calado, se forçado! Não existe porto seguro porque todos os portos estão em alto-mar, e nosso navio não tem âncoras. Navegar é preciso, pois navegar é viver – vamos deixar de bobagens: viver é preciso, sim! É gostoso e útil. Nomes nomeiam o que será e o que foi. Não o que é, porque nada apenas é! Universo é gerúndio.

Augusto Boal.

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