quinta-feira, 26 de setembro de 2013

A Pequena Coleção por Érica Lopes

PEQUENA COLEÇÃO DE TODAS AS COISAS
Cia. Dani Lima – RJ
25 de setembro de 2013, 16h
Teatro Vila Velha



A subversão não está na forma, está no olhar.

Brinquedo. É a primeira coisa que me vem à mente ao pensar no espetáculo. De fato, foi isso o que senti durante quase todo o tempo da peça. A montagem me reportou aos brinquedos da infância, à leveza, à alegria, ao faz de conta.
A maneira de se relacionar com os objetos dispostos no palco sem necessariamente se prender aos seus usos e classificações cotidianos, me levou ao mundo infantil onde qualquer coisa pode ser tudo o que quisermos. As crianças pareciam estar bastante identificadas com aquele acontecimento também.
Muitas vezes percebi durante a apresentação a presença de jogos que eu já tinha selecionado para utilizar na oficina, que será realizada no meu estágio deste semestre, com um grupo do quarto ano do ensino fundamental no Centro Municipal de Educação Infantil Cid Passos (Coutos - Salvador/BA), e que embasará a pesquisa do meu Trabalho de Conclusão de Curso. Por exemplo, “Quando eu for pra lua” e jogos de frases com os objetos.
Alguns dos educandos com os quais trabalharei em breve estavam lá, participando da formação de plateia do FIAC. Aproveitei pra já começar uma conversa com alguns e comentar que também faremos um trabalho com objetos. Certamente essa experiência será de grande valia na oficina.
O espetáculo se classifica como “dança infantil”, e me questiono essa categorização: o que define até onde vai a dança e começa o teatro ou vice-versa? No bate-papo após a apresentação, Dani Lima começou esse assunto com as crianças, mas a demanda do público por realizar mais perguntas não permitiu o desenvolvimento do tema. Ela chegou a dizer que o espetáculo diferia porque não tinha história (Teatro necessariamente tem que ter história para ser teatro?! Pensei. Ah, o nosso bom e velho modelo dramático… Ah, meu TCC… rs), mas o assunto não pôde ser desenvolvido. Achei a proposta bem parecida com o que estou pretendendo fazer no estágio e que enquadrei como teatro. Talvez uma sutil diferença se coloque na forma e ênfase dada ao trabalho corporal, mas ainda não estou segura disso.
Busquei, durante todo o tempo, encontrar as relações com a minha proposta de estágio e, por um tempo, fiquei presa à busca pela observação dos contatos não cotidianos com os objetos nas ações realizadas em cena. Mas as cenas mesclavam o faz de conta infantil com os usos padrões das coisas. Até que finalmente eu percebi (eu também já modelada, apesar de ciente) que a subversão não necessariamente está na forma, mas no olhar.
A encenação fazia constantemente agrupamentos de coisas, coleções. E como coleções, utilizava critérios, sentidos lógicos: cores, usos, preferências, nomes começados com a mesma letra e até kits para as mais variadas coisas, de sobrevivência na casa da árvore a salvamento de ursinho de pelúcia. Mas, ainda que em algum momento resolvessem fazer a classificação mais óbvia e usual, meu olhar já estaria contaminado do estranhamento, da ludicidade, da abertura às possibilidades.
Parece-me que o processo criativo deles é mais focado no corpo que nos objetos em si. Dani Lima chegou a dizer que realizaram muitos jogos centrados em ações, verbos e movimentos e, como ilustração, realizou um jogo em que um diz um verbo, por exemplo, abrir, e todos vão falando possibilidades com abrir, exemplos: abrir a boca, abrir uma porta, abrir a cabeça, abrir um pacote de biscoito. Tenho a impressão de que a classificação dos objetos que resultou nos diversos agrupamentos utilizados em cena também foram provenientes de jogos.
Dani explicou que essa peça é uma adaptação para crianças, realizada em dois meses e meio de processo, de um espetáculo adulto da Cia, chamado Pequeno Inventário de Lugares Comuns. O processo do espetáculo adulto está registrado no blog http://pequenoinventriodelugarescomuns.blogspot.com.br/ .

por Érica Lopes


A Pequena Coleção por Joseane Santana


Diário de uma Pesquisadora

A experiência de ver, o momento de contemplar, um movimento curioso, um método que não é formula, uma ideia que surge, floresce e depois frutifica nas nossas cabeças.

A PEQUENA COLEÇÃO DE TODAS AS COISAS
Direção: Dani Lima
Intérpretes-criadores: Carla Stank, Laura Samy, Lindon Shimizu, Renato Linhares

Espetáculo de dança contemporânea apresentado no dia 25 de setembro de 2013 na Sala Principal do Teatro Vila Velha pela programação do Festival Internacional de Arte Cênica (Fiac).
Poucas são as palavras para descrever tantas sensações, e seguirei dessas poucas palavras para descrever o que vi, senti e vivi na tarde dessa quarta-feira quente e cansativa em Salvador.
Reencontro – minha primeira palavra, escolho ela porque foi bom rever minha colega de trabalho e turma Érica Lopes, tocar aquele imenso casulo e saber que ela está bem. Foi bom reencontrar Telma Gualberto, que também estava por lá, trabalhando, ajudando na construção daquele espetáculo. Enfim, foi muito bom também reencontrar com alguns objetos que a muito eu não via, todos ali espalhados naquele palco reformulado para receber a magia da arte.
Bagunça – minha segunda palavra, e essa é extremamente pessoal, meu dia foi muito bagunçado, e encontrar todas aquelas coisas espalhadas no palco me incomodou, para que o leitor entenda, no inicio do espetáculo os quatro atuantes – os denomino assim, porque não os vejo apenas como dançarinos, e como eles não se denominam atores, assim faço para facilitar a minha descrição –, estavam espalhados no meio de uma bagunça, formada por 120 objetos diversos, dos quais muitos temos em nossa casa, eram tantos que fico até confusa em descrever.
De repente em movimentos dos mais variados, os objetos começam a tomar outro rumo e ganhamos fileiras, e de cada objeto vai surgindo uma história, vai surgindo um formato de se contar uma história, os corpos vão fazendo formas, os objetos vão formando contornos, os atuantes vão ganhando corpos, tons de voz e aos poucos começam a surgir desejos, o desejo de cada atuante forma um grupo de objetos, denominados kits, por exemplo, tínhamos o kit na casa de socorro, na casa da árvore, o kit deserto, e muitos outros.
E as músicas intervinham como mãos nas formas e contornos da história, e das brigas ao amor tudo era embalado por um som, sons que vinham do palco por meio eletrônico e microfones, ou pelo batuque composto por objetos que já estavam ali, como um tapete, uma caixa e uma lixeira; ou mesmo por meio da própria mesa de som, que dialogava perfeitamente com todos os movimentos e objetos.
E num sopro as cores se separam, cada objeto ganha seu espaço e um vão no meio do palco é aberto e eis que surgem super-heróis, novos personagens, novos desejos e novas histórias, os corpos criam movimentos dos mais simples aos mais desenvolvidos, eles brigam, brincam, sorriem e choram, eles formam um corpo único que nos encanta, que se mistura com os objetos que fecundam num espetáculo envolvente.
Pronto, as bagunças foram arrumadas, do meio para o final do espetáculo eu ri, chorei, e fixei o olhar no palco, tentava reparar o uso de cada objeto, e no final, fui surpreendida, após um solo encantador de uma das atuantes, ganhamos um espetáculo a parte, e ai vêm a minha última palavra: Surpresa.
Talvez, está palavra fosse suficiente para compor todo esse escrito, porque eu não esperava que aquele amontoado de coisas me provocasse tanto, me fizesse ter vontade de brincar. E, no fim um data show é ligado, e famílias surgem a partir de objetos menores que dão espaço para novas histórias e que belissimamente nos encaminham ao fim.
Poético, romântico e simples. Das cores verde, vermelho, branco, marrom, azul e amarelo que separavam os grupos de objetos pelo espaço monto um imenso arco – íris, uma floresta, ou o gostoso quintal de casa, onde eu costumava brincar de cozinheira. Retrocedi, viajei no tempo e ao fim do espetáculo me senti no futuro, no mais distante alento das cores.

por Joseane Santana

quarta-feira, 25 de setembro de 2013



CONCILIAR

desejos 
possibilidades




Tão pessoal, tão meu momento, e encontro uma intervenção relacionada...

http://empreendedorismorosa.com.br/desejos-urbanos/

Quando duas imagens singulares, obras de dois poetas que vivenciam separadamente seu devaneio, se encontram, parece que se reforçam mutuamente. Essa convergência de duas imagens excepcionais proporcionam, de certa forma, uma confirmação para a pesquisa fenomenológica. A imagem perde a sua gratuidade. O livre jogo da imaginação já não é uma anarquia.” 

(BACHELARD, Gaston. A poética do espaço. p.73, l.13)


por Érica Lopes