domingo, 13 de agosto de 2017

Publicado por Nilson Rocha.

"Quando certas pessoas vêem novas formas, exclamam queixosas: "Formalismo!", mas elas próprias são as piores formalistas, adoradas a qualquer preço das velhas formas, pessoas que só têm olhos para as formas, só cuidam delas, só delas fazem objeto de sua investigação. O não-saber-fazer, o não-saber-fazer-algo-de-determinado é realmente uma preconição para saber fazer algo de diferente." (BRECHT)

"Cresci como filho de pessoas bem situadas. Meus pais puseram-me um colarinho e educaram-me nos costumes do ser-servido e ensinaram-me a arte de dar ordens. Mas quando cresci e olhei em torno de mim, as pessoas de minha classe não me agradaram, nem o dar-ordens nem o ser-servido. E eu abandonei minha classe e juntei-me às pessoas inferiores." (BRECHT)

sábado, 12 de agosto de 2017

Aplicação da metalinguagem no livro: "A Torre Negra III, As Terras Devastadas", de Stephen King.

“- E é muitíssimo importante que todos vocês leiam O Senhor das Moscas – dizia a Sra. Avery com sua voz clara mas um tanto monótona. – E quando o fizerem, devem fazer-se algumas perguntas. Um bom romance é muitas vezes uma série de enigmas dentro de enigmas, e esse é um romance muito bom, um dos melhores escritos na segunda metade do século XX. Portanto, perguntem-se primeiro qual o significado que a concha marinha pode ter. Segundo...” (KING, Stephen. A Torre Negra III, As Terras Devastadas. P. 156).

Neste trecho retirado do volume III, da série A Torre Negra, temos uma aplicação de metalinguagem. Aqui, o autor usa da linguagem escrita e verbal (da língua) para decodificar o código dessa mesma linguagem. Através de um romance escrito, o autor afirma que um bom romance é aquele que traz em si enigmas dentro de enigmas. Essa fala é da professora de redação da personagem Jake, um garoto de 11 anos. Jake vem ouvindo duas vozes há duas semanas. Uma diz que ele morreu e a outra diz que ele está vivo. As vozes parecem não parar de falar e Jake acha que está perto de enlouquecer. Jake morrera atropelado ao ser empurrado num cruzamento intencionalmente, em seu próprio mundo de Nova York entre 1970-1980 e renasceu no Mundo Médio, o mundo que seguiu adiante, o mundo de Roland de Gilead, o pistoleiro. Durante uma viagem no tempo, o pistoleiro consegue evitar a morte de Jake, criando uma fenda na consciência dos dois. Ambos vivem em seus respectivos mundos. Roland segue a partir da criação desta fenda a ouvir duas vozes. Uma que diz que ele conhecera o garoto (para o garoto aparecer no mundo do pistoleiro, ele precisaria estar morto em seu mundo – Nova York) e outra que diz que ele não conhecera o garoto (o garoto estaria vivo em Nova York depois que Roland teria voltado no tempo e impedido o seu assassinato). Jake começa a ouvir as vozes pouco antes de seu assassinato ser impedido. Enquanto caminha em direção a sua escola, o garoto começa a ter um tipo de deja vu. Começa a lembrar de cada detalhe antes de sua morte na medida em que caminha para o local onde morrera. Ao chegar ao cruzamento no qual um cadilac azul o atropelara, Jake consegue sentir duas mãos o empurrando, mas não passa do deja vu. A partir daí, as vozes começam. E ele passa a ter alucinações e sonhos com o Mundo Médio. Mais adiante na página 180, a personagem Jake encontra-se dentro de uma livraria na qual compra dois livros: Charlie Chu-Chuu e O que É o que É! Charadas e Adivinhações para Todos! Outra vez, o romance usa da metalinguagem ao descrever o cenário da sua obra: uma livraria. Dentro do segundo livro comprado por ele, Jake entra em contato com um enigma:

“Do comedor veio a carne e do forte a doçura!” (P. 185).

Ao que segue no diálogo entre Jake e Aaron:

“- Quer dizer que a resposta é o leão – disse Jake. Aaron sacudiu a cabeça.
-Só metade da resposta. O Enigma de Sansão é um duplo, meu amigo. A outra metade da resposta é mel. Sacou?” (P. 187).


Através do livro, Stephen King usa de exemplos e comentários de personagens sobre esses livros para apresentar, decodificar o código contido em seu próprio livro. Durante essas páginas, o autor vai mostrando à/ao leitora/leitor e através da personagem Jake, que um enigma está surgindo em sua história, na história da Torre Negra.