sábado, 26 de dezembro de 2015

I Semente: Seminário Integrado de Ensino, Pesquisa e Extensão

 

por Fabrícia Dias da Silva
Licencianda em Teatro UFBA


Entre os dias 30/11 e 04/12 aconteceu o I SEMENTE: Seminário Integrado de Ensino, Pesquisa e Extensão, e nós bolsistas-pesquisadores do CELULA (PIBIC/UFBA) estivemos presentes comunicando nossas pesquisas e trocando experiências com pesquisadores de outros programas e áreas de pesquisa da universidade. O Seminário aconteceu no campus de Ondina e foi organizado pelo Gabinete da Reitoria, PROEXT, PROGRAD, PROAE, PROPCI, CIEPE/SUPAC, EDUFBA e SUMAI e contou em sua programação palestras, conferências e sessões de trabalho. A programação completa e os resumos podem ser conferidos aqui. 

Como pesquisadora no CELULA desde julho de 2014 optei por falar da experiência tecida no evento "Rotas e Encontros: experiência lúdica e docência" idealizado pela bolsista e produzido pelo projeto de pesquisa em maio de 2015. Daí que minha comunicação reflete esse contexto específico, sobretudo na perspectiva da licenciatura em teatro, campo de minha formação. O artigo elaborado para a participação no I Semente tem a orientação da professora Célida Salume e breve será compartilhado aqui no blog. 

Segue abaixo o resumo do trabalho e registros da comunicação:

Experiência Lúdica e Docência: 
um convite para refletir o papel da ludicidade no ensino do teatro

Este trabalho busca investigar a experiência construída no evento Rotas e Encontros: Experiência lúdica e Docência, realizado pelo CELULA (Centro Lúdico Laboratorial de Processos Criativos), projeto de ensino, pesquisa e extensão da UFBA do qual participo como bolsista-pesquisadora. O evento reuniu docentes e arte-educadores no Teatro Martim Gonçalves para dialogar sobre a importância da ludicidade na prática teatral, sobretudo na perspectiva do ensino do teatro em espaços formais. O evento estruturou-se em dois momentos compartilhados com o público. O primeiro reuniu os participantes para uma vivência lúdica na Caixa Sensória Labiríntica, instalação cenográfica e performática cujos percursos estimularam experiências perceptivas, sensórias e memoriais a partir de microperformances elaboradas pelos bolsistas do CELULA em parceria com o projeto de extensão Laboratório Poéticas da Afetividade. No segundo momento, posterior à vivência estético-poética, os participantes acompanharam as falas das professoras doutoras Cilene Canda (FACED/UFBA) e Célida Salume (PPGAC/UFBA) e da diretora e dramaturga Paula Lice (Pequena Sala de Ideias). As temáticas expostas pelas professoras teceram relações entre ludicidade, ensino do teatro, teatro para a infância e formação docente, e desdobraram-se em um bate-papo com o público abarcando dúvidas e relatos de experiências. Elucida esta reflexão a ideia de processos de ensino-aprendizagem que considera a ludicidade como fator formador do sujeito, indicando a experiência e a criatividade como aspectos fundamentais da pedagogia do teatro e que podem estimular ações em outros campos pedagógicos. A reflexão teórica considera as noções de jogo lúdico de Roger Caillois, experiência de Jorge Larossa Bondía, e as concepções acerca do processo criativo em arte vislumbrado por Cecília Almeida Salles; a articulação destes conceitos torna possível a compreensão do papel da ludicidade na educação, sobretudo quando as práticas de ensino aproximam o sujeito do brincar, do jogo e da autonomia criativa. Por fim, acredito que a possibilidade de construção de conhecimento que articule teoria e práxis é um caminho para a educação que considere o sujeito, sua história e sua cultura. 


Fuzuê, parará, caixinha de fósforo ...

por Fabrícia Dias da Silva
Licencianda em Teatro UFBA


O encontro "Fuzuê, parará, caixinha de fósforo...Atividades poéticas de revitalização da Escola de Teatro da UFBA" aconteceu no dia 25 de novembro no patio da instituição e proporcionou um momento para a participação em atividades que visavam poetizar o pátio da escola. A ação faz da parte da programação do CELULA para as comemorações dos 60 anos da Escola de Teatro que começam nesse pequeno ato e que se estenderá com outras ações a partir do primeiro semestre de 2016. 

Nossa programação contou com uma Oficina de Jardinagem com o Pedro de Rosa Morais logo pela manhã. Pedro é músico talentoso e há algum tempo vem cuidando do jardim da escola, sempre fomentando o plantio de flores e criando um agradável lugar para a convivência dos estudantes e funcionários do curso. Neste dia aprendemos uma pouco sobre replante de mudas, saúde das plantas, regas e influência das plantas em nosso dia a dia promovendo o bem estar e o estado contemplativo. 

      
  


Depois foi o momento para "tecermos" nossas árvores com cores e texturas. Em grupos, escolhemos uma árvore do espaço e na extensão do tronco fomos amarrando tiras de tecido, criando blocos de cores que aos poucos irradiaram vida. Buscamos atrair a atenção dos participantes para a importância das árvores como nossos abrigos de sombra e lar de muitos pássaros e insetos. 

 

    

Simultaneamente, outro grupo iniciava uma ação de pintura e colagem no tapume que protege a estrutura do que virá a ser o prédio de aulas da ETUFBA, ainda em construção. Nosso intuito era também chamara a atenção para a importância do prédio e sua finalização, imprimindo no muro silhuetas coloridas, num desejo de dizermos "nós também fazemos parte da escola e desejamos de ver o pavilhão de aulas realizado"!

  

Para finalizar o dia abrimos uma roda de declamações de poesias com diversas participações, das quais agradecemos aos colegas poetas e poetizas, Darlon Silva, Suzernagle Bento e Simone Portugal que abriram a roda com poemas autorais e de poetas consagrados.

  

Abaixo compartilho um vídeo da cantora Lisa Hannigan, onde as cores se misturam com a poesia-canção, invadem o branco presente, alegra e cria novas atmosferas.



quarta-feira, 11 de novembro de 2015

O Fabuloso Destino de Amélie Poulain- Postado pro Jamile Cruz

Acabo de terminar de assistir um filme encantador e poético, na madrugada de hoje(12.11.2015), O Fabuloso Destino de Amélie Poulain, dirigido por Jean-Pierre Jeunet e que traz uma caixa de estimulo como ponto de partida para o desenrolar do filme. É a partir dessa caixa misteriosa que o filme toma outro rumo, que a vida da personagem principal muda... É uma história de pessoas comuns que tem alguns de seus detalhes colocados em destaque.  O Fabuloso Destino de Amélie Poulain é um filme antigo, mas como os antigos ainda encantam esse filme é encantador e diferente com seus personagens  marcados por particularidades díspares.  Amélie é uma garota “traumatizada” com o suicídio de sua mãe em frente à igreja, a distância afetiva de seu pai e um diagnóstico errado de um problema em seu coração que a mantém longe do convívio com outras crianças.
A suposta doença faz com que Amélie seja mantida sempre em casa, sem amigos e com suas fantasias. Ela cresce, vai morar sozinha e vive sua vida com as marcas que sua infância deixou, mas sempre muito doce e sensível. Sem querer ela acha uma caixa cheia de objetos do antigo morador de sua casa atual e esse encontro muda os caminhos do filme e a motiva a fazer outras coisas. Quando ela encontra o dono da caixa e percebe o quanto ele se emocionou ela descobre um novo objetivo para sua vida: fazer com que as pessoas fiquem felizes através de pequenos gestos. Durante seu caminho ela encontra os mais atraentes e memoráveis personagens. De um rapaz que coleciona fotografias de pessoas anônimas, até um senhor que não vê televisão porque tem preguiça de trocar os canais.
Eu entendi essa caixa que mudou o sentido da vida de Amélie como um pacote de estimulo composto, que é a seleção de objetos escolhidos a partir de um objetivo específico, para gerar improvisos, se formos pensar no contexto da dramatização. Não sei diretamente qual finalidade do diretor e nem o seu objetivo com a aqueles objetos, mas esse pacote fez com que Amélie se sentisse estimulada a viver de outra maneira, a criar situações, a improvisar durante determinadas circunstâncias. E como diz Beatriz cabral
 O estímulo composto reúne um conjunto de artefatos-objetos, fotografias, cartas e documentos, por exemplo, em uma embalagem apropriada. A história que se desenvolve a partir dele ganha significância através do cruzamento de seu conteúdo -- o relacionamento entre os artefatos nele contidos– e como os detalhes de cada um sugerem ações e motivações humanas (CABRAL, 2066, p.36).

A caixa que Amélie Poulain achou e a relação que ele teve com a mesma foi à motivação para ela buscar, a ação sugerida foi a de procura por esse dono e depois que ela viu e sentiu o quanto aqueles objetos instigaram a memória desse homem e o motivou  a resolver um dilema familiar, ela decidiu ajudar os outros com seu jeito diferente, reservado, solitário e cheio de planos, até o momento final em que ela descobre o amor e começa a jogar com ele até perceber que para ele acontecer é preciso que ela se permitir e se ajude.


Segue um pequeno trecho do texto do filme:

- Sabe a garota do copo de água?

- Sei.
          - Se parece distante, talvez seja porque está pensando em alguém.
- Em alguém do quadro?
- Não, um garoto com quem cruzou em algum lugar e sentiu que eram parecidos.
- Em outros termos, prefere imaginar uma relação com alguém ausente a criar laços com os que estão presentes.
- Ao contrário, talvez tente arrumar a bagunça da vida dos outros.
- E ela? E a bagunça na vida dela? Quem vai pôr ordem?''



Referência
CABRAL, Beatriz Ângela Vieira. Drama como método de ensino. São Paulo: Hucitec, 2006.

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Rotas e Encontros. Postado por Jamile Cruz

Registros sobre a vivência artística Momento Tátil e Olfativo no projeto Rotas e Encontros, que aconteceu dia 26 de maio de 2015 no Teatro Martim Gonçalves, das 14 às 18 horas.  Rotas e Encontros foi idealizado por Fabrícia Dias e são ciclos periódicos de palestras, debates e conferências com temáticas voltadas para a formação de professores e alunos da licenciatura, envolvendo também experiências artísticas vivenciadas pelo público participante.  Essa primeira edição teve como tema: Experiências Lúdicas e Docência. As convidadas Paula Lince, Celida Salume e Cilene Canda estiveram presentes debatendo esse tema após um momento lúdico e artístico que  aconteceu para abrir a conversação, intitulado como A caixa sensória. Ela foi uma vivencia dividida em quatro momentos, quatro núcleos onde os participantes poderiam experimentar o toque e o cheiro sem o auxilio da visão, viver um mergulho em suas cicatrizes, criar um imagem a partir de alguns objetos e apreciar a contação de uma historia. Nesta intervenção eu estive no momento tátil e olfativo, onde eu pude experimentar e despertar sensações e memórias a partir de objetos em pessoas com os olhos vendados. Um momento de sentir e ver os extremos a partir dos outros sentidos. Depois da experiência os participantes estavam livres para escrever o que eles sentiram durante a experiência.  Segue alguns desses escritos. 



















domingo, 25 de outubro de 2015

Postado por Nilson Rocha.

Documentário 'Os tabus sociais na percepção de gêneros e papéis sexuais.'.

Esse documentário se faz bastante interessante e fundamental ao trazer questionamentos e conceitos que mobilizam à discussão sobre identidade de gênero, identidade sexual, diversidade e preconceito. Para mim que estou pesquisando 'A comicidade no processo de criação teatral' é muito importante discutir a respeito das opressões a fim de ir entendendo qual a função do cômico na sociedade. Eu estou rindo com o oprimido ou do oprimido? É muito mais fácil fazer piadas homofóbicas, racistas, sexistas e, por aí vai. Difícil e mais inteligente é criar a partir da comédia que sugira transformações sociais e individuais e que não alimente ainda mais a discriminação. 




quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Antropologia Teatral e pré-expressividade: conceitos norteadores para pesquisa de composição corporal


por Fabrícia Dias da Silva
Licencianda em Teatro UFBA


A Antropologia Teatral tem se debruçado a investigar as diversas especialidades disciplinares relacionadas com a representação. Nas obras  A Arte secreta do Ator e A Canoa de Papel o autor e pesquisador Eugênio Barba pretende a partir do estudo do comportamento cênico identificar e comparar princípios comuns existentes na representação, considerando para isso o ator e suas técnicas em um nível transcultural. Segundo Barba, a Antropologia Teatral é:

O estudo do comportamento cênico pré-expressivo que se encontra na base dos diferentes gêneros, estilos e papéis e das tradições pessoais e coletivas […] Em uma situação de representação organizada, a presença física e mental do ator modela-se segundo princípios diferentes dos da vida cotidiana. A utilização extra cotidiana do corpo-mente é aquilo a que se chama “técnica”. (BARBA, 1994. p.23)

Barba aponta que o trabalho do ator concentra três aspectos díspares correspondentes a três níveis de organização. Esses aspectos referenciam um conteúdo individual do ator e sua inter-relação com a sociedade, com a tradição cênica e com técnicas transculturais que constituem o campo pré-expressivo. Assim, os três aspectos citados pelo autor consideram:

1. A personalidade do ator, sua sensibilidade, sua inteligencia artística, sua individualidade social que torna cada ator único e irrepetível.
2.   A particularidade da tradição cênica e do contexto histórico-cultural através dos quais a irrepetível personalidade do ator se manifesta.
3. A utilização do corpo-mente segundo técnicas extra cotidianas baseadas em princípios-que-retornam transculturais. Estes princípios-que-retornam constituem o que a Antropologia Teatral define como o campo da pré-expressividade. (BARBA, 1994. p. 24-25)

Eugênio Barba considera que no processo de representação do ator convive com diversos níveis de organização. No entanto, em  sua pesquisa a cerca da Antropologia Teatral Barba aponta que existe um nível de organização básico que se opera em todos os atores e que seria possível distinguir e trabalhar separadamente os níveis de organização que constituem a expressão do ator (BARBA,1995,p.188). O nível básico referido por Barba é definido como pré-expressivo.

O nível que se ocupa com o como tornar a energia do ator cenicamente viva, isto é, com o como o ator pode tornar-se uma presença que atrai imediatamente a atenção do espectador, é o nível pré-expressivo  e é o campo de estudo da antropologia teatral. (Idem, p.188)

O professor Renato Ferracini em seu livro A arte de não-interpretar como poesia corpórea do Ator, esclarece o conceito de pré-expressividade, colocando-o como um nível onde o ator trabalha princípios para aquisição da presença cênica, objetivando a energia e sua manipulação e o desenvolvimento das ações físicas:

[...] pré-expressivo é aquilo que vem antes da expressão, da personagem construída e antes da cena acabada. É o nível onde o ator produz, e principalmente, trabalha todos os elementos técnicos e vitais de suas ações físicas e vocais. É o nível da  presença, onde o ator se trabalha, independente de qualquer outro elemento externo, quer seja texto, personagem ou cena [...] podemos dizer que existe um nível básico de organização, comum a todos os atores, e mesmo anterior à expressão em si. A esse nível básico de organização poderíamos denominar pré-expressividade.(FERRACINI, 2003, p.87)

A pré-expressividade está contida no nível da expressão ao mesmo tempo que faz-se possível trabalha-la separadamente. Na prática criativa o ator poderá trabalhar os níveis pré-expressivos no sentido de reconhecer e manipular suas energias, presença e os múltiplos níveis de organização que envolvem a representação a partir da seqüência de ações físicas e vocais memoradas pelo corpo-mente, a tal ponto que poderá se repetir essas sequência espontaneamente pelo ator no instante presente da cena. O nível pré-expressivo esta diretamente relacionado à aquisição da presença cênica portanto:

[...]  é o alicerce do trabalho não-interpretativo, pois é nesse nível que o ator busca aprender e treinar uma maneira operativa, técnica e orgânica de articular, tanto suas ações físicas e vocais no espaço como, e principalmente, sua dilatação corpórea, sua presença cênica e a manipulação de suas energias.
Essa busca pode dar-se de duas formas: pelo aprendizado de uma técnica sistematizada e codificada que “ensine e treine” a manipulação desses elementos pré-expressivos, o que significa deparar-se com uma técnica de aculturação, como  é o caso das técnicas orientais de representação; ou em uma busca individual que resulte numa pesquisa dos caminhos que levem a um encontro com suas próprias energias, organizando-as no espaço e no tempo, por meio de uma técnica pessoal de representação. (Idem, p.88)

Barong and Kris Dance, dança Balinesa . A eterna luta de Barong e Rangda (Indonésia).

Barba nos fala que em todas as culturas é possível observar o que ele chama de técnica de aculturação, técnicas corporais específicas que são distintas das usadas na vida cotidiana. Potencialmente, a técnica de aculturação desarticula comportamentos físicos que condicionam o ator a estereótipos e investe para construção de um outro corpo, um corpo consciente de suas referências socioculturais mas que se permite experimentar outra relação de composição e atuação no mundo. Processo de busca  e observação sobre um processo de desconstrução do corpo que exige prontidão.

A técnica de aculturação é a distorção da aparência usual (natural), a fim de recriá-la sensorialmente de uma maneira fresca e surpreendente. No caminho da aculturação é difícil distinguir o ator do bailarino.
O ator-bailarino aculturado manifesta uma qualidade e uma irradiação energética que é presença pronta a ser transformada em dança ou teatro, de acordo com a convenção ou tradição [...] Tanto a via de inculturação quanto a de aculturação ativa o nível pré-expressivo: presença pronta para representar. (BARBA,1995, p.190)

A técnica pessoal de representação é citada dor Ferracini e refere-se a uma técnica formulada pelo próprio ator. Neste contexto insere-se a Antropologia Teatral, que visa impulsionar o ator para princípios embasados em um corpo que busca o extracotidiano, pensado a partir de um processo de “desaculturação”, processo de fuga da corporeidade marcada por estereótipos e maneirismos. A técnica pessoal de representação sugere uma passagem por um treinamento pré-expressivo, visando a qualidade de energia, do movimento, do bios cênico e o estímulo a criação autônoma. Barba afirma que:
  
A análise transcultural mostra que nestas técnicas se podem individualizar alguns princípios que retornam. Esses princípios aplicados ao peso, ao equilíbrio, ao uso da coluna vertebral e dos olhos, produzem tensões físicas pré-expressivas. Trata-se de uma qualidade extra cotidiana de energia que torna o corpo teatralmente “decidido”, “vivo”, “crível”; desse modo, a presença do ator, seu bios cênico, consegue manter a atenção do espectador antes de transmitir qualquer mensagem. Trata-se de um antes lógico, não cronológico. (BARBA, 1994, p.23)


Dundubhi Natyam,  dança tradicional Mohiniyattam. Performance Deepti Omchery Bhalla (Índia).

Um dos elementos principais que podem ser percebidos dentro do campo da pré-expressividade é a relação entre cotidiano e extracotidiano, ou seja, o movimento carregado de elementos que não se vinculam à forma tradicional pela qual vemos os gestos. Eugênio Barba pontua a diferença entre a técnica cotidiana e a técnica extracotidiana.
O nosso corpo é utilizado de maneira substancialmente diferente na vida cotidiana e nas situações de representação. No contexto cotidiano, a técnica do corpo esta condicionada pela cultura, pelo estado social e pelo ofício. Em uma situação de representação existe uma diferença técnica do corpo. Pode-se então distinguir uma técnica cotidiana de uma técnica extracotidiana. (1994, p.30)

No corpo cotidiano nota-se uma postura que acentua-se pelo princípio do esforço mínimo, ou seja, alcançar o rendimento máximo com o mínimo uso de energia. Em outra via, a técnica extracotidiana trabalha com o princípio do uso elevado da concentração de energia, objetivando por vezes o uso máximo de energia para um resultado mínimo do corpo (BARBA,1994, p.31). Em cena a presença física e mental do ator modela-se gerando um novo corpo e por conseqüência uma nova qualidade de energia, energia diferente da cotidiana, dilatada e que engloba todo o corpo. 

Outro elemento fluente na pesquisa de um treinamento pré-expressivo é a energia. Barba cita vários termos que designam energia no teatro oriental e nos dá como exemplo a palavra koshi, que no Japão define a presença do ator em cena e refere-se a uma parte específica do corpo humano: ao caminhar, os atores bloqueiam o quadril, evitando que ele siga os movimentos das pernas. Dois tipos de tensões são criados no corpo, na parte inferior as pernas devem mover-se e na parte superior o tronco e a coluna vertebral força-se para baixo sobre o quadril. Essa ação solicita portanto um equilíbrio peculiar, propondo um tônus muscular diferenciado, a maior concentração da energia e projeta, por consequência, o ator ao a deslocar-se com esforço específico e diferente do qual exerce quando caminha cotidianamente.  O uso do koshi gera tensões que condicionam o corpo do ator a encontrar uma outra maneira de equilibrar-se. Barba sobre a energia nos diz:

A energia do ator é uma qualidade facilmente identificável. É sua potencia nervosa e muscular. O fato de essa potência existir não é particularmente interessante, já que ela existe, por definição, em qualquer corpo vivo. O que é interessante é a maneira pela qual essa potencia é moldada num contexto muito especial: o teatro.[...] Estudar a energia do ator, portanto, significa examinar os princípios pelos quais ele pode modelar e educar sua potência muscular e nervosa de acordo com situações não-cotidianas. (1995, p.74)



 
Kalyanasougandhikam, dança Kathakali, tradicionalmente interpretada apenas por homens (Índia).

A pré expressividade talvez não seja visível em cena, mas é o processo mais intenso do ator, a base sólida da construção, o que existe de mais presente. Detalhes ajustados em seqüência, em que cada subconjunto é também um gráfico com seu começo, seu ápice, seu fim e isto de maneira precisa e fundida através da extracotidianeidade, dos desenhos de energia e um desenvolvimento orgânico.  

Referências 
BARBA, Eugenio & SAVARESE, Nicola. A arte secreta do ator: Dicionário de Antropologia Teatral. Campinas: Hucitec, 1995.
BARBA, Eugenio. A canoa de papel:  Tratado de antropologia teatral. Trad.: Patrícia  Alves. São Paulo: Hucitec, 1994. 
FERRACINI, Renato. A arte de não interpretar como poesia corpórea do ator. São Paulo: Editora da Unicamp, 2003.

* Os vídeos compartilhados foram retirados da internet e desejam uma observação dos estados corporais e criativos que tanto impressionaram Eugênio Barba na tecitura de sua antropologia teatral. 

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Postado por Nilson Rocha.

“Todos esses objetos são muito diferentes, mas todos eles nos sugerem, poder-se-ia dizer, a mesma visão abstrata: a dum efeito que se propaga, aumentando-se a si próprio, de maneira que a causa, insignificante na origem, vem a redundar, por um progresso, necessário, num resultado tão importante como imprevisto.” (BERGSON, 'O Riso - Ensaio sobre o significado do cômico'. 1993. pg. 65).



KATHY: Chandler, o que você está fazendo aqui?

CHANDLER: Eu só queria dizer 'oi'.

KATHY: Oi.

CHANDLER: Ok.

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Postado por Nilson Rocha

LEI 1: Tem possibilidade de se tornar cômica toda a deformidade que uma pessoa normal pode imitar. (BERGSON, ‘O Riso – Ensaio sobre o significado do cômico’, pg. 29).

“Portanto, uma expressão facial risível será a que nos dá a impressão de qualquer coisa parecida com a condensação, a cristalização da mobilidade normal da fisionomia. Um tique consolidado, uma careta que se torna permanente, eis o que nós vemos (...) a expressão cômica do rosto é aquela que não promete mais do que aquilo que patenteia. É uma máscara única e definitiva. Dir-se-ia que toda a vida moral do indivíduo cristalizou naquele sistema. E é por isso que uma cara é tanto mais cômica quanto melhor nos sugere a ideia de qualquer ação simples, mecânica, em que a personalidade ficasse para sempre condensada.” (BERGSON, ‘O Riso – Ensaio sobre o significado do cômico’, pg. 30).




quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Postado por Nilson Rocha

“Eis o primeiro ponto para o qual chamaremos a atenção: não existe cômico fora do que é propriamente humano. Uma paisagem poderá ser bela, graciosa, sublime, insignificante ou feia; mas nunca será risível. Poderemos rir-nos dum animal, mas somente porque surpreendemos nele uma atitude de homem ou uma expressão humana. Poderemos rir-nos dum chapéu, mas do que a gente se ri não é do bocado de feltro ou de palha, mas da forma que os homens lhe deram, do capricho humano que o modelou.” (BERGSON, 'O Riso - Ensaio sobre o significado do cômico'. 1993. pg. 18).



Postado por Nilson Rocha

Começando a fichar hoje !!!

“Lógica a seu modo, até nos seus maiores desvios; metódica na sua loucura; sonhando, admito-o, mas evocando em sonhos visões que são imediatamente aceites e compreendidas por uma sociedade inteira, como é que a fantasia cômica não nos havia de dar o conhecimento dos processos de trabalho da imaginação humana e, mais particularmente, da imaginação social, coletiva, popular? Impregnada de vida real, aparentada com a arte, como não nos havia ela de dizer também a sua palavra sobre a arte e sobre a vida?” (pg. 18).



domingo, 11 de outubro de 2015

Ato Performativo "Banquete do Nada": o corpo como materialidade e outros pré-textos

(Praça da Inglaterra, Comércio, Salvador, dezembro de 2014)

Fabrícia Dias
Licencianda em Teatro


O ato performativo Banquete do Nada aconteceu em dezembro de 2014, na Praça Inglaterra, área comercial de Salvador. O ato foi orientado pela professora Dra. Célida Salume Mendonça e performado pelos bolsistas-pesquisadores do Pibic CELULA, do qual participo a pouco mais de um ano.  

Em Banquete do Nada os performers fazem da arquitetura da cidade seu lugar de comunicação e convidam o público a observar um banquete onde todos comem e se fartam do vazio, da ausência. O trabalho é uma crítica àqueles que já saciados não enxergam os contextos contrários à justa distribuição de recursos. Aspectos mais detalhados da ação estão disponíveis no roteiro de ações no fim deste relato.

Percebo a construção dessa ação amparada em dois aspectos principais. Primeiramente, o texto (obra literária) posto como pré-texto, ou seja, estimulo para a criação a partir de uma dramaturgia original. Em segundo, e de teor igual, a utilização do corpo como materialidade configurando-se como elemento gerador de imagens.

Por materialidade podemos entender o conjunto de materiais propostos para uma investigação cênica cujo papel é impulsionar processos criativos e imagéticos, esses materiais podem ser objetos, músicas, imagens, textos, em fim, uma gama de suportes disparadores da criatividade. Na proposta curricular para o conteúdo de Artes elaborado pelo Estado de São Paulo percebemos como ampla a definição de materialidade e como ela está amalgamada a um contexto simbólico:

[...] Cada material é uma matéria que dá consistência física à obra de arte. O corpo, o movimento do/no corpo, como o mármore, a parafina e o feltro, ou, o som e o silêncio, são matérias que deixam de ser o que são quando sujeitas à prática artística, perdendo sua crueza de matéria pela passagem para o simbólico. Matérias são pele sobre a carne da obra. A materialidade é, portanto, sígnica na medida em que dá sustento, suporta significação, na mesma relação de conteúdo e forma. O estudo da materialidade das produções artísticas nos aproxima da poética dos materiais, do sentido que brota e de que modo brota da própria matéria pela sua simbolização. Matéria, procedimentos com a matéria, suportes e ferramentas estão envolvidos intrinsecamente. [...] (Proposta Curricular do Estado de São Paulo, 2008, p.47)

Por fim, podemos dizer que o corpo do ator/performer também é materialidade, na medida em que sendo o suporte, o estimulo e a forma, é a partir dele e com ele que o artista da cena cria e comunga sua obra. Segundo Roberto Mallet o corpo [do ator] agindo passa a servir de matéria para a criação poética, e por isso a partir das relações de presença, ficcionalidade e corporeidade inscreve seu corpo como espaço de narrativas simbólicas:

A matéria do ator é fundamentalmente seu próprio corpo. As ações que ele realiza conformam esse corpo. Sua matéria é um organismo vivo, composto por tecidos e órgãos, com um cérebro capaz de armazenar e processar um número incalculável de informações. Por não ser exterior ao ator – ao contrario o corpo é próprio ator - essa materialidade está em constante interação com o psiquismo. Um movimento corporal terá ressonâncias na memória e nos sentimentos, assim como uma lembrança ou um pressentimento tem ressonâncias corpóreas. A forma de uma atuação é a composição das diversas ações realizadas. É a estrutura de tensões e relaxamentos musculares, o jogo de vetores e contra-vetores que o ator executa com seu corpo, e que resultam em um texto legível. (MALETT, 2004)

Neste sentido, para a construção da cena partimos da presença do corpo na cena como materialidade propriamente dita - a partir do corpo buscamos estímulos e com o corpo respondíamos as imagens provocadas. Destaco também que o corpo artístico presente na rua (no nosso contexto na zona comercial de Salvador, espaço sufocado pelo fluxo de consumo e de protocolos executivos) já constrói pela sua presença propriamente dita estranhamento no espaço atraído diversos olhares e formulando leituras também diversas sobre sua passagem.

Como disse anteriormente, além da materialidade do corpo, nosso processo criativo conjecturou com a prática de pré-texto aprofundada por Beatriz Cabral em sua obra Drama como Método de Ensino (1998). Adiante exponho outros elementos que foram tomados como estímulo para o ato performativo. 


O pré-texto

Para esse processo utilizamos como pré-texto a peça O Pássaro Azul (1908), do poeta e dramaturgo belga Maurice Maeterlinck. As experimentações foram tecidas a partir do nono quadro do 4º ato, intitulado “No Jardim das Felicidades”. Neste quadro o autor nos apresenta suas Felicidades-Gordas, personagens alegóricas que representam ideias de felicidades que facilmente podem ser referenciadas pelos sete pecados capitais, vistos que o perfil das felicidades transborda, configuram-se supérfluos, sobre tudo, diante das personagens que protagonizam a peça, Mitil e Titil, irmãos que vivem o natal em um contexto de pobreza e saem de casa em busca da verdadeira felicidade, na peça, representada pela delicada imagem de um pássaro. 

O Pássaro Azul é uma fantasia alegórica sobre a busca da felicidade. Segue abaixo breve trecho:

(Ao abrir-se a cortina, desvendasse, no primeiro plano do jardim, uma espécie de sala formada por altas colunas de mármore, entre as quais, dissimulando todo o fundo, se estendem pesadas cortinas de púrpura, pendentes de cordões de ouro. A arquitetura lembra os momentos mais sensuais e suntuosos da Renascença veneziana ou flamenga (Veronese e Rubens). Guirlandas, cornucópias, torsos, vasos, estátuas, dourados enxameiam por toda parte. - Ao meio, maciça e feérica mesa de jaspe e prata dourada, repleta de tochas, cristais, baixelas de ouro e prata, e atulhada de manjares fabulosos. - Em redor da mesa, comem, bebem, urram, cantam, agitam-se, espojam-se ou adormecem entre pratos de caça, frutas fantásticas, ânforas e gomis derrubados, as maiores Felicidades da Terra. São enormes, incrivelmente obesas e rubicundas, cobertas de veludos e brocados, coroadas de ouro, pérolas e pedrarias. Belas escravas trazem continuamente pratos enfeitados e bebidas espumantes. - Música vulgar, hilariante e grosseira, em que dominam os metais. Luz pesada, vermelha, banha a cena. [...]).

TILTIL - Quem são essas senhoras gordas que se divertem e comem tantas coisas boas?
LUZ - São as maiores Felicidades da Terra, aquelas que a gente pode ver a olho nu. É possível, embora pouco provável, que o Pássaro Azul se tenha perdido por um instante no meio delas. Assim, não vire ainda o Diamante.  Por formalidade, vamos primeiro explorar esta parte do salão.
TILTIL - Pode-se chegar perto?
LUZ - Certamente. Não são más, embora vulgares, e geralmente mal-educadas.
[...]
TILTIL - Parecem tão satisfeitas, tão felizes!  Como gritam! E riem! E cantam! Acho que já nos viram.

De fato, umas doze Felicidades, das maiores, se levantaram da mesa e caminham penosamente, segurando os ventres, em direção ao grupo das crianças.

LUZ - Não tenha medo, são muito acolhedoras. Provavelmente vão convidá-lo para jantar.  Não aceite.  Não aceite nada, para não se esquecer de sua missão.
TILTIL - O quê?  Nem um docinho? Eles têm um ar tão gostoso, tão fresco!
LUZ - São perigosos e afrouxariam sua vontade. Recuse delicadamente, mas com firmeza.  Aqui estão.
FELICIDADE GORDA (estende a mão a Tiltil) - Bom dia, Tiltil.
TILTIL (espantado) - A senhora me conhece?  Quem é a senhora?
FELICIDADE GORDA - Sou a mais gorda entre as Felicidades, a Felicidade-de-ser-rico. Em nome de minhas irmãs, peço a você e a sua família que venham honrar o nosso jantar infinito. Ficarão no meio do que há de melhor entre as verdadeiras e grandes Felicidades deste mundo.  Permitam que lhes apresente as principais dentre nós. Aqui está minha nora, a Felicidade-da-vaidade-satisfeita, cujo rosto é tão graciosamente balofo. (A Felicidade-da-vaidade-satisfeita cumprimenta com ar protetor.) Aqui estão a Felicidade-de-beber-quando-não-se-tem-mais-sede, e a Felicidade-de-comer-quando-não-se-tem-mais-fome, que tem pernas de macarrão. (Cumprimentam, cambaleantes) Aqui, a Felicidade-de-ignorar-tudo, surda como uma porta, e a Felicidade-de-não-compreender-nada, cega como uma toupeira.  Esta é a Felicidade-de-não-fazer-nada, e a outra, a Felicidade-de-dormir-mais-do-que-o-necessário; tem mãos de miolo de pão, e olhos de geleia de pêssego.  Aqui, finalmente, a Risada Espessa, aberta até as orelhas, e à qual ninguém pode resistir. (Risada Espessa cumprimenta, retorcendo-se toda). [...]

Referências incorporadas ao processo

Outras obras surgiam durante as experimentações e eram incorporadas ao roteiro de ações que estruturam o ato performativo, além das obras, leituras e discussões ajudavam-nos a orientar nossa comunicação, traduzindo nossos pensamentos em cena espetacular.


Um trecho da obra dramática de Bertolt Brecht, A Padaria, foi compartilhado por nossa orientadora, Célida Salume, e posteriormente inserido na dramaturgia da performance. O trecho intitulado A luta pelo vintém, apresenta um grupo de desempregados que falam diretamente aos espectadores sobre sua dificuldade para conseguirem seu alimento e a dura realidade de saber que apenas 1 em 7 desempregados comem. Brecht toma o espectador como cúmplice da realidade exposta pelos desempregados.

Vocês que acabaram de comer
Permitam que mostremos
Nosso incansável esforço para conseguir algo para comer
A comida mais modesta já é suficiente.
[...]
Pelas grades no asfalto
Pessoas sem nenhuma marca
Ou indicação “cair”
De repente, sem ruído, em rápida queda
Pessoas que caminham ao nosso lado, felizes, caem.
Em meio a torrente humana
Seguindo seleção imprecisa,
Seis entre sete caem, mas o sétimo
Vai ao refeitório.
Quem de nós será o próximo?

Contrastante com o plano criado por Maurice Maeterlinck para suas felicidades-gordas, o plano criado pelo dramaturgo alemão nos mostra a escassez de tais privilégios, o que ocasiona, sem aviso, a morte de seus personagens. É justamente o contraste destes planos que nos estimularam a escolher o tema de nosso trabalho, visando provocar no transeunte um estranhamento a partir de personagens que se alimentam vaidosamente de nada, comer o nada para destacar a má distribuição de renda em nosso país e ao mesmo tempo destacar o quanto estamos habituados com tal situação. 

Outro elemento que incorporamos foi um trecho da música É tão triste cair, do compositor e sambista Nelson Cavaquinho. Utilizamos a música vinculada ao exercício “CAIR”, prática onde todos caminham aleatoriamente e um por vez grita a palavra “cair” enquanto de fato cai. Todos do grupo devem tentar sustentar a pessoa antes que ela tombe ao chão. Este exercício trabalha o sentido grupal, a percepção e a escuta em grupo.

Ontem subiste, eu desci / Hoje eu subo, tu desces / É tão triste cair.
Sorriste da minha dor / Este mundo é uma escola / Não te esqueças de aprender, meu amor [...]

O exercício associado à letra da música condensa uma ideia de solidariedade, de destino reverso e existência do outro. Aponta que, assim como o poder, a ação também é dinâmica e perpassa campos de reflexão amparados na alteridade e no pensamento ético.


Macro-roteiro de Ações: “Banquete Do Nada”

Roteiro tecido a partir de impressões sobre a obra O Pássaro Azul, de Maurice Maeterlinck e o texto inicial da peça dramática A Padaria, de Bertolt Brecht. As ações foram pensadas visando uma interação direta com o espaço da Praça da Inglaterra, no centro comercial de Salvador.


01.      PRIMEIRA AÇÃO: Esta ação refere-se a chegada dos performers no espaço em um processo com três instantes distintos. No primeiro instante varrem a praça coletivamente, num movimento convergente das extremidades para o centro da praça, enquanto varrem cantam a canção de Nelson Cavaquinho “É tão triste cair” (ver abaixo); depois recolhem o lixo. Após, ambientam o espaço com defumadores e flores azuis de papel (as flores completam espaços da natureza em desfalque. Ex: portal ou um troco sem vida). Toda a ação é feita com distanciamento atoral e com a participação de todos. Depois iniciam uma caminhada por um espaço demarcado da praça por uma lona azul que demarca o espaço/área de jogo, interagem com os transeuntes a partir do exercício do “cair” e da frase do texto de Brecht “Pessoas que caminham ao nosso lado, felizes, caem”. Outras frases podem ser incorporadas a caminhada.


02.      SEGUNDA AÇÃO: Esta ação refere-se à cena específica do banquete. Um performer toca um sino de metal, todos os que varriam vestem seus figurinos assumindo personagens e exibindo máscaras corporais correspondentes às felicidades citadas por Maeterlinck no Pássaro Azul. Após todos vestidos e instalados no espaço, o performer toca novamente o sino convidando as felicidades para um banquete. O performer apresenta todas as felicidades como se fosse um desfile de celebridades, cada uma recebe uma placa com a identificação de seu status (invejosa, vaidosa, gulosa...). Após apresentadas, todas se sentam e o performer serve os pratos brancos vazios, talheres e um guardanapo de pano. Toca-se novamente o sino anunciando que podem comer a vontade o primeiro prato – a cada novo prato servido toca-se o sino e os pratos anunciados são correspondentes a trechos do nono quadro da obra de Maeterlinck (ex: um manjar de doce crueldade). As felicidades demonstram muita satisfação e desejo sobre o banquete, elegantemente estendem os guardanapos e vendam-se. Ali comem um banquete imaginário, com os olhos vendados. As felicidades são exageradas e podem ser grotescas, estranhas, rudes, sarcásticas.

03.      TERCEIRA AÇÃO: Esta cena refere-se ao momento de transição e finalização do ato. O último prato servido poderá ser trazido pela personagem Luz, que serve em uma baixela (ou algo parecido) um pássaro azul para cada felicidade. Este momento marca a transição das “felicidades gordas” para uma tomada de consciência sobre a felicidade simples. Os performers continuam o andamento da cena em um ritmo desacelerado, retiram a vedas e iniciam um processo lento de passagem do grotesco ao humano. No momento da cena a personagem Luz faz-se uma leitura de um recorte do texto de Brecht, A Padaria;


Motivamos a partir do contato com o pássaro a transformação das personagens e do espaço. Quando a Luz coloca o pássaro nos pratos das felicidades estas despertam, retiram as vendas dos olhos e criam uma relação com aquele objeto de encantamento e brincadeira. Após este momento instalamos na praça enfeites, linhas, macramê, em fim, tecemos um espaço lúdico e fantasioso – um presente de natal (poderemos utilizar frases do “Pássaro Azul” nesta ação).  Podemos finalizar com uma ação no contexto de coralidade com todos os performers encontrando-se no centro da praça e juntos no exercício do “cair” não caem e finalizam sustentando-se pelos apoios dos ombros.


Bibliografia
CABRAL, Beatriz Ângela V. Drama como método de ensino. São Paulo. Hucitec: Edições Mandacaru, 1998.
BRECHT, Bertolt. A Padaria. In: Bertolt Brecht Teatro Completo 12. São Paulo: Editora Paz e Terra, 1995.
MAETERLINCK, Maurice. O Pássaro Azul. Disponível em: https://pt.scribd.com/doc/56980077/Passaro-azul-2  . Acesso em: 05/02/2015.
MALLET, Roberto. Ação corporal: matéria do ator. Revista do 17º Festival Universitário de Blumenau Blumenau. Santa Catarina: 2004. (p. 47-48)
Proposta Curricular do Estado de São Paulo: Arte /  Coord. Maria Inês Fini. – São Paulo: SEE, 2008. (p.47-48)

.