domingo, 11 de outubro de 2015

Ato Performativo "Banquete do Nada": o corpo como materialidade e outros pré-textos

(Praça da Inglaterra, Comércio, Salvador, dezembro de 2014)

Fabrícia Dias
Licencianda em Teatro


O ato performativo Banquete do Nada aconteceu em dezembro de 2014, na Praça Inglaterra, área comercial de Salvador. O ato foi orientado pela professora Dra. Célida Salume Mendonça e performado pelos bolsistas-pesquisadores do Pibic CELULA, do qual participo a pouco mais de um ano.  

Em Banquete do Nada os performers fazem da arquitetura da cidade seu lugar de comunicação e convidam o público a observar um banquete onde todos comem e se fartam do vazio, da ausência. O trabalho é uma crítica àqueles que já saciados não enxergam os contextos contrários à justa distribuição de recursos. Aspectos mais detalhados da ação estão disponíveis no roteiro de ações no fim deste relato.

Percebo a construção dessa ação amparada em dois aspectos principais. Primeiramente, o texto (obra literária) posto como pré-texto, ou seja, estimulo para a criação a partir de uma dramaturgia original. Em segundo, e de teor igual, a utilização do corpo como materialidade configurando-se como elemento gerador de imagens.

Por materialidade podemos entender o conjunto de materiais propostos para uma investigação cênica cujo papel é impulsionar processos criativos e imagéticos, esses materiais podem ser objetos, músicas, imagens, textos, em fim, uma gama de suportes disparadores da criatividade. Na proposta curricular para o conteúdo de Artes elaborado pelo Estado de São Paulo percebemos como ampla a definição de materialidade e como ela está amalgamada a um contexto simbólico:

[...] Cada material é uma matéria que dá consistência física à obra de arte. O corpo, o movimento do/no corpo, como o mármore, a parafina e o feltro, ou, o som e o silêncio, são matérias que deixam de ser o que são quando sujeitas à prática artística, perdendo sua crueza de matéria pela passagem para o simbólico. Matérias são pele sobre a carne da obra. A materialidade é, portanto, sígnica na medida em que dá sustento, suporta significação, na mesma relação de conteúdo e forma. O estudo da materialidade das produções artísticas nos aproxima da poética dos materiais, do sentido que brota e de que modo brota da própria matéria pela sua simbolização. Matéria, procedimentos com a matéria, suportes e ferramentas estão envolvidos intrinsecamente. [...] (Proposta Curricular do Estado de São Paulo, 2008, p.47)

Por fim, podemos dizer que o corpo do ator/performer também é materialidade, na medida em que sendo o suporte, o estimulo e a forma, é a partir dele e com ele que o artista da cena cria e comunga sua obra. Segundo Roberto Mallet o corpo [do ator] agindo passa a servir de matéria para a criação poética, e por isso a partir das relações de presença, ficcionalidade e corporeidade inscreve seu corpo como espaço de narrativas simbólicas:

A matéria do ator é fundamentalmente seu próprio corpo. As ações que ele realiza conformam esse corpo. Sua matéria é um organismo vivo, composto por tecidos e órgãos, com um cérebro capaz de armazenar e processar um número incalculável de informações. Por não ser exterior ao ator – ao contrario o corpo é próprio ator - essa materialidade está em constante interação com o psiquismo. Um movimento corporal terá ressonâncias na memória e nos sentimentos, assim como uma lembrança ou um pressentimento tem ressonâncias corpóreas. A forma de uma atuação é a composição das diversas ações realizadas. É a estrutura de tensões e relaxamentos musculares, o jogo de vetores e contra-vetores que o ator executa com seu corpo, e que resultam em um texto legível. (MALETT, 2004)

Neste sentido, para a construção da cena partimos da presença do corpo na cena como materialidade propriamente dita - a partir do corpo buscamos estímulos e com o corpo respondíamos as imagens provocadas. Destaco também que o corpo artístico presente na rua (no nosso contexto na zona comercial de Salvador, espaço sufocado pelo fluxo de consumo e de protocolos executivos) já constrói pela sua presença propriamente dita estranhamento no espaço atraído diversos olhares e formulando leituras também diversas sobre sua passagem.

Como disse anteriormente, além da materialidade do corpo, nosso processo criativo conjecturou com a prática de pré-texto aprofundada por Beatriz Cabral em sua obra Drama como Método de Ensino (1998). Adiante exponho outros elementos que foram tomados como estímulo para o ato performativo. 


O pré-texto

Para esse processo utilizamos como pré-texto a peça O Pássaro Azul (1908), do poeta e dramaturgo belga Maurice Maeterlinck. As experimentações foram tecidas a partir do nono quadro do 4º ato, intitulado “No Jardim das Felicidades”. Neste quadro o autor nos apresenta suas Felicidades-Gordas, personagens alegóricas que representam ideias de felicidades que facilmente podem ser referenciadas pelos sete pecados capitais, vistos que o perfil das felicidades transborda, configuram-se supérfluos, sobre tudo, diante das personagens que protagonizam a peça, Mitil e Titil, irmãos que vivem o natal em um contexto de pobreza e saem de casa em busca da verdadeira felicidade, na peça, representada pela delicada imagem de um pássaro. 

O Pássaro Azul é uma fantasia alegórica sobre a busca da felicidade. Segue abaixo breve trecho:

(Ao abrir-se a cortina, desvendasse, no primeiro plano do jardim, uma espécie de sala formada por altas colunas de mármore, entre as quais, dissimulando todo o fundo, se estendem pesadas cortinas de púrpura, pendentes de cordões de ouro. A arquitetura lembra os momentos mais sensuais e suntuosos da Renascença veneziana ou flamenga (Veronese e Rubens). Guirlandas, cornucópias, torsos, vasos, estátuas, dourados enxameiam por toda parte. - Ao meio, maciça e feérica mesa de jaspe e prata dourada, repleta de tochas, cristais, baixelas de ouro e prata, e atulhada de manjares fabulosos. - Em redor da mesa, comem, bebem, urram, cantam, agitam-se, espojam-se ou adormecem entre pratos de caça, frutas fantásticas, ânforas e gomis derrubados, as maiores Felicidades da Terra. São enormes, incrivelmente obesas e rubicundas, cobertas de veludos e brocados, coroadas de ouro, pérolas e pedrarias. Belas escravas trazem continuamente pratos enfeitados e bebidas espumantes. - Música vulgar, hilariante e grosseira, em que dominam os metais. Luz pesada, vermelha, banha a cena. [...]).

TILTIL - Quem são essas senhoras gordas que se divertem e comem tantas coisas boas?
LUZ - São as maiores Felicidades da Terra, aquelas que a gente pode ver a olho nu. É possível, embora pouco provável, que o Pássaro Azul se tenha perdido por um instante no meio delas. Assim, não vire ainda o Diamante.  Por formalidade, vamos primeiro explorar esta parte do salão.
TILTIL - Pode-se chegar perto?
LUZ - Certamente. Não são más, embora vulgares, e geralmente mal-educadas.
[...]
TILTIL - Parecem tão satisfeitas, tão felizes!  Como gritam! E riem! E cantam! Acho que já nos viram.

De fato, umas doze Felicidades, das maiores, se levantaram da mesa e caminham penosamente, segurando os ventres, em direção ao grupo das crianças.

LUZ - Não tenha medo, são muito acolhedoras. Provavelmente vão convidá-lo para jantar.  Não aceite.  Não aceite nada, para não se esquecer de sua missão.
TILTIL - O quê?  Nem um docinho? Eles têm um ar tão gostoso, tão fresco!
LUZ - São perigosos e afrouxariam sua vontade. Recuse delicadamente, mas com firmeza.  Aqui estão.
FELICIDADE GORDA (estende a mão a Tiltil) - Bom dia, Tiltil.
TILTIL (espantado) - A senhora me conhece?  Quem é a senhora?
FELICIDADE GORDA - Sou a mais gorda entre as Felicidades, a Felicidade-de-ser-rico. Em nome de minhas irmãs, peço a você e a sua família que venham honrar o nosso jantar infinito. Ficarão no meio do que há de melhor entre as verdadeiras e grandes Felicidades deste mundo.  Permitam que lhes apresente as principais dentre nós. Aqui está minha nora, a Felicidade-da-vaidade-satisfeita, cujo rosto é tão graciosamente balofo. (A Felicidade-da-vaidade-satisfeita cumprimenta com ar protetor.) Aqui estão a Felicidade-de-beber-quando-não-se-tem-mais-sede, e a Felicidade-de-comer-quando-não-se-tem-mais-fome, que tem pernas de macarrão. (Cumprimentam, cambaleantes) Aqui, a Felicidade-de-ignorar-tudo, surda como uma porta, e a Felicidade-de-não-compreender-nada, cega como uma toupeira.  Esta é a Felicidade-de-não-fazer-nada, e a outra, a Felicidade-de-dormir-mais-do-que-o-necessário; tem mãos de miolo de pão, e olhos de geleia de pêssego.  Aqui, finalmente, a Risada Espessa, aberta até as orelhas, e à qual ninguém pode resistir. (Risada Espessa cumprimenta, retorcendo-se toda). [...]

Referências incorporadas ao processo

Outras obras surgiam durante as experimentações e eram incorporadas ao roteiro de ações que estruturam o ato performativo, além das obras, leituras e discussões ajudavam-nos a orientar nossa comunicação, traduzindo nossos pensamentos em cena espetacular.


Um trecho da obra dramática de Bertolt Brecht, A Padaria, foi compartilhado por nossa orientadora, Célida Salume, e posteriormente inserido na dramaturgia da performance. O trecho intitulado A luta pelo vintém, apresenta um grupo de desempregados que falam diretamente aos espectadores sobre sua dificuldade para conseguirem seu alimento e a dura realidade de saber que apenas 1 em 7 desempregados comem. Brecht toma o espectador como cúmplice da realidade exposta pelos desempregados.

Vocês que acabaram de comer
Permitam que mostremos
Nosso incansável esforço para conseguir algo para comer
A comida mais modesta já é suficiente.
[...]
Pelas grades no asfalto
Pessoas sem nenhuma marca
Ou indicação “cair”
De repente, sem ruído, em rápida queda
Pessoas que caminham ao nosso lado, felizes, caem.
Em meio a torrente humana
Seguindo seleção imprecisa,
Seis entre sete caem, mas o sétimo
Vai ao refeitório.
Quem de nós será o próximo?

Contrastante com o plano criado por Maurice Maeterlinck para suas felicidades-gordas, o plano criado pelo dramaturgo alemão nos mostra a escassez de tais privilégios, o que ocasiona, sem aviso, a morte de seus personagens. É justamente o contraste destes planos que nos estimularam a escolher o tema de nosso trabalho, visando provocar no transeunte um estranhamento a partir de personagens que se alimentam vaidosamente de nada, comer o nada para destacar a má distribuição de renda em nosso país e ao mesmo tempo destacar o quanto estamos habituados com tal situação. 

Outro elemento que incorporamos foi um trecho da música É tão triste cair, do compositor e sambista Nelson Cavaquinho. Utilizamos a música vinculada ao exercício “CAIR”, prática onde todos caminham aleatoriamente e um por vez grita a palavra “cair” enquanto de fato cai. Todos do grupo devem tentar sustentar a pessoa antes que ela tombe ao chão. Este exercício trabalha o sentido grupal, a percepção e a escuta em grupo.

Ontem subiste, eu desci / Hoje eu subo, tu desces / É tão triste cair.
Sorriste da minha dor / Este mundo é uma escola / Não te esqueças de aprender, meu amor [...]

O exercício associado à letra da música condensa uma ideia de solidariedade, de destino reverso e existência do outro. Aponta que, assim como o poder, a ação também é dinâmica e perpassa campos de reflexão amparados na alteridade e no pensamento ético.


Macro-roteiro de Ações: “Banquete Do Nada”

Roteiro tecido a partir de impressões sobre a obra O Pássaro Azul, de Maurice Maeterlinck e o texto inicial da peça dramática A Padaria, de Bertolt Brecht. As ações foram pensadas visando uma interação direta com o espaço da Praça da Inglaterra, no centro comercial de Salvador.


01.      PRIMEIRA AÇÃO: Esta ação refere-se a chegada dos performers no espaço em um processo com três instantes distintos. No primeiro instante varrem a praça coletivamente, num movimento convergente das extremidades para o centro da praça, enquanto varrem cantam a canção de Nelson Cavaquinho “É tão triste cair” (ver abaixo); depois recolhem o lixo. Após, ambientam o espaço com defumadores e flores azuis de papel (as flores completam espaços da natureza em desfalque. Ex: portal ou um troco sem vida). Toda a ação é feita com distanciamento atoral e com a participação de todos. Depois iniciam uma caminhada por um espaço demarcado da praça por uma lona azul que demarca o espaço/área de jogo, interagem com os transeuntes a partir do exercício do “cair” e da frase do texto de Brecht “Pessoas que caminham ao nosso lado, felizes, caem”. Outras frases podem ser incorporadas a caminhada.


02.      SEGUNDA AÇÃO: Esta ação refere-se à cena específica do banquete. Um performer toca um sino de metal, todos os que varriam vestem seus figurinos assumindo personagens e exibindo máscaras corporais correspondentes às felicidades citadas por Maeterlinck no Pássaro Azul. Após todos vestidos e instalados no espaço, o performer toca novamente o sino convidando as felicidades para um banquete. O performer apresenta todas as felicidades como se fosse um desfile de celebridades, cada uma recebe uma placa com a identificação de seu status (invejosa, vaidosa, gulosa...). Após apresentadas, todas se sentam e o performer serve os pratos brancos vazios, talheres e um guardanapo de pano. Toca-se novamente o sino anunciando que podem comer a vontade o primeiro prato – a cada novo prato servido toca-se o sino e os pratos anunciados são correspondentes a trechos do nono quadro da obra de Maeterlinck (ex: um manjar de doce crueldade). As felicidades demonstram muita satisfação e desejo sobre o banquete, elegantemente estendem os guardanapos e vendam-se. Ali comem um banquete imaginário, com os olhos vendados. As felicidades são exageradas e podem ser grotescas, estranhas, rudes, sarcásticas.

03.      TERCEIRA AÇÃO: Esta cena refere-se ao momento de transição e finalização do ato. O último prato servido poderá ser trazido pela personagem Luz, que serve em uma baixela (ou algo parecido) um pássaro azul para cada felicidade. Este momento marca a transição das “felicidades gordas” para uma tomada de consciência sobre a felicidade simples. Os performers continuam o andamento da cena em um ritmo desacelerado, retiram a vedas e iniciam um processo lento de passagem do grotesco ao humano. No momento da cena a personagem Luz faz-se uma leitura de um recorte do texto de Brecht, A Padaria;


Motivamos a partir do contato com o pássaro a transformação das personagens e do espaço. Quando a Luz coloca o pássaro nos pratos das felicidades estas despertam, retiram as vendas dos olhos e criam uma relação com aquele objeto de encantamento e brincadeira. Após este momento instalamos na praça enfeites, linhas, macramê, em fim, tecemos um espaço lúdico e fantasioso – um presente de natal (poderemos utilizar frases do “Pássaro Azul” nesta ação).  Podemos finalizar com uma ação no contexto de coralidade com todos os performers encontrando-se no centro da praça e juntos no exercício do “cair” não caem e finalizam sustentando-se pelos apoios dos ombros.


Bibliografia
CABRAL, Beatriz Ângela V. Drama como método de ensino. São Paulo. Hucitec: Edições Mandacaru, 1998.
BRECHT, Bertolt. A Padaria. In: Bertolt Brecht Teatro Completo 12. São Paulo: Editora Paz e Terra, 1995.
MAETERLINCK, Maurice. O Pássaro Azul. Disponível em: https://pt.scribd.com/doc/56980077/Passaro-azul-2  . Acesso em: 05/02/2015.
MALLET, Roberto. Ação corporal: matéria do ator. Revista do 17º Festival Universitário de Blumenau Blumenau. Santa Catarina: 2004. (p. 47-48)
Proposta Curricular do Estado de São Paulo: Arte /  Coord. Maria Inês Fini. – São Paulo: SEE, 2008. (p.47-48)

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