(Praça
da Inglaterra, Comércio, Salvador, dezembro de 2014)
Fabrícia
Dias
Licencianda em Teatro
O ato performativo
Banquete do Nada aconteceu em dezembro de 2014, na Praça Inglaterra, área comercial
de Salvador. O ato foi orientado pela professora Dra. Célida Salume Mendonça e
performado pelos bolsistas-pesquisadores do Pibic CELULA, do qual participo a
pouco mais de um ano.
Em Banquete do Nada os performers fazem da
arquitetura da cidade seu lugar de comunicação e convidam o público a observar
um banquete onde todos comem e se fartam do vazio, da ausência. O trabalho é uma
crítica àqueles que já saciados não enxergam os contextos contrários à justa distribuição
de recursos. Aspectos mais detalhados da ação estão disponíveis no roteiro de
ações no fim deste relato.
Percebo a
construção dessa ação amparada em dois aspectos principais. Primeiramente, o
texto (obra literária) posto como pré-texto,
ou seja, estimulo para a criação a partir de uma dramaturgia original. Em
segundo, e de teor igual, a utilização do corpo como materialidade configurando-se
como elemento gerador de imagens.
Por
materialidade podemos entender o conjunto de materiais propostos para uma
investigação cênica cujo papel é impulsionar processos criativos e imagéticos,
esses materiais podem ser objetos, músicas, imagens, textos, em fim, uma gama
de suportes disparadores da criatividade. Na proposta curricular para o conteúdo
de Artes elaborado pelo Estado de São Paulo percebemos como ampla a definição
de materialidade e como ela está amalgamada a um contexto simbólico:
[...] Cada material é uma matéria que dá
consistência física à obra de arte. O corpo, o movimento do/no corpo, como o
mármore, a parafina e o feltro, ou, o som e o silêncio, são matérias que deixam
de ser o que são quando sujeitas à prática artística, perdendo sua crueza de
matéria pela passagem para o simbólico. Matérias são pele sobre a carne da
obra. A materialidade é, portanto, sígnica na medida em que dá sustento,
suporta significação, na mesma relação de conteúdo e forma. O estudo da
materialidade das produções artísticas nos aproxima da poética dos materiais,
do sentido que brota e de que modo brota da própria matéria pela sua simbolização.
Matéria, procedimentos com a matéria, suportes e ferramentas estão envolvidos intrinsecamente.
[...] (Proposta Curricular do Estado de São Paulo, 2008, p.47)
Por fim,
podemos dizer que o corpo do ator/performer também é materialidade, na medida
em que sendo o suporte, o estimulo e a forma, é a partir dele e com ele que o
artista da cena cria e comunga sua obra. Segundo Roberto Mallet o corpo [do ator] agindo passa a servir de matéria para a criação poética,
e por isso a partir das relações de presença, ficcionalidade e corporeidade
inscreve seu corpo como espaço de narrativas simbólicas:
A matéria do ator é fundamentalmente seu próprio corpo. As
ações que ele realiza conformam esse corpo. Sua
matéria é um organismo vivo, composto por tecidos e órgãos, com um cérebro
capaz de armazenar e processar um número incalculável de informações. Por não
ser exterior ao ator – ao contrario o corpo é próprio ator - essa materialidade
está em constante interação com o psiquismo. Um movimento corporal terá ressonâncias
na memória e nos sentimentos, assim como uma lembrança ou um pressentimento tem
ressonâncias corpóreas. A forma de uma atuação é a composição das diversas ações realizadas. É a estrutura de tensões e
relaxamentos musculares, o jogo de vetores e contra-vetores que o ator executa
com seu corpo, e que resultam em um texto legível. (MALETT, 2004)
Neste sentido,
para a construção da cena partimos da presença do corpo na cena como materialidade
propriamente dita - a partir do corpo buscamos estímulos e com o corpo respondíamos
as imagens provocadas. Destaco também que o corpo artístico presente na rua (no
nosso contexto na zona comercial de Salvador, espaço sufocado pelo fluxo de
consumo e de protocolos executivos) já constrói pela sua presença propriamente
dita estranhamento no espaço atraído diversos olhares e formulando leituras
também diversas sobre sua passagem.
Como disse
anteriormente, além da materialidade do corpo, nosso processo criativo
conjecturou com a prática de pré-texto
aprofundada por Beatriz Cabral em sua obra Drama como Método de Ensino (1998).
Adiante exponho outros elementos que foram tomados como estímulo para o ato
performativo.
O pré-texto
Para esse
processo utilizamos como pré-texto a
peça O Pássaro Azul (1908), do poeta e dramaturgo belga Maurice Maeterlinck. As
experimentações foram tecidas a partir do nono quadro do 4º ato, intitulado “No
Jardim das Felicidades”. Neste quadro o autor nos apresenta suas Felicidades-Gordas, personagens
alegóricas que representam ideias de felicidades que facilmente podem ser
referenciadas pelos sete pecados capitais, vistos que o perfil das felicidades transborda, configuram-se supérfluos,
sobre tudo, diante das personagens que protagonizam a peça, Mitil e Titil,
irmãos que vivem o natal em um contexto de pobreza e saem de casa em busca da
verdadeira felicidade, na peça, representada pela delicada imagem de um pássaro.
O Pássaro Azul é uma fantasia alegórica sobre a busca da felicidade. Segue abaixo
breve trecho:
(Ao abrir-se a cortina, desvendasse, no
primeiro plano do jardim, uma espécie de sala formada por altas colunas de
mármore, entre as quais, dissimulando todo o fundo, se estendem pesadas
cortinas de púrpura, pendentes de cordões de ouro. A arquitetura lembra os
momentos mais sensuais e suntuosos da Renascença veneziana ou flamenga (Veronese
e Rubens). Guirlandas, cornucópias, torsos, vasos, estátuas, dourados enxameiam
por toda parte. - Ao meio, maciça e feérica mesa de jaspe e prata dourada,
repleta de tochas, cristais, baixelas de ouro e prata, e atulhada de manjares
fabulosos. - Em redor da mesa, comem, bebem, urram, cantam, agitam-se,
espojam-se ou adormecem entre pratos de caça, frutas fantásticas, ânforas e
gomis derrubados, as maiores Felicidades da Terra. São enormes, incrivelmente
obesas e rubicundas, cobertas de veludos e brocados, coroadas de ouro, pérolas
e pedrarias. Belas escravas trazem continuamente pratos enfeitados e bebidas
espumantes. - Música vulgar, hilariante e grosseira, em que dominam os metais.
Luz pesada, vermelha, banha a cena. [...]).
TILTIL - Quem
são essas senhoras gordas que se divertem e comem tantas coisas boas?
LUZ - São as
maiores Felicidades da Terra, aquelas que a gente pode ver a olho nu. É
possível, embora pouco provável, que o Pássaro Azul se tenha perdido por um
instante no meio delas. Assim, não vire ainda o Diamante. Por formalidade, vamos primeiro explorar esta
parte do salão.
TILTIL - Pode-se
chegar perto?
LUZ - Certamente.
Não são más, embora vulgares, e geralmente mal-educadas.
[...]
TILTIL -
Parecem tão satisfeitas, tão felizes!
Como gritam! E riem! E cantam! Acho que já nos viram.
De fato, umas doze Felicidades, das maiores,
se levantaram da mesa e caminham penosamente, segurando os ventres, em direção
ao grupo das crianças.
LUZ - Não
tenha medo, são muito acolhedoras. Provavelmente vão convidá-lo para
jantar. Não aceite. Não aceite nada, para não se esquecer de sua
missão.
TILTIL - O
quê? Nem um docinho? Eles têm um ar tão
gostoso, tão fresco!
LUZ - São
perigosos e afrouxariam sua vontade. Recuse delicadamente, mas com
firmeza. Aqui estão.
FELICIDADE
GORDA (estende a mão a Tiltil) - Bom dia, Tiltil.
TILTIL
(espantado) - A senhora me conhece? Quem
é a senhora?
FELICIDADE
GORDA - Sou a mais gorda entre as Felicidades, a Felicidade-de-ser-rico. Em
nome de minhas irmãs, peço a você e a sua família que venham honrar o nosso
jantar infinito. Ficarão no meio do que há de melhor entre as verdadeiras e
grandes Felicidades deste mundo.
Permitam que lhes apresente as principais dentre nós. Aqui está minha
nora, a Felicidade-da-vaidade-satisfeita, cujo rosto é tão graciosamente
balofo. (A Felicidade-da-vaidade-satisfeita
cumprimenta com ar protetor.) Aqui estão a
Felicidade-de-beber-quando-não-se-tem-mais-sede, e a
Felicidade-de-comer-quando-não-se-tem-mais-fome, que tem pernas de macarrão. (Cumprimentam, cambaleantes) Aqui, a
Felicidade-de-ignorar-tudo, surda como uma porta, e a Felicidade-de-não-compreender-nada,
cega como uma toupeira. Esta é a
Felicidade-de-não-fazer-nada, e a outra, a Felicidade-de-dormir-mais-do-que-o-necessário;
tem mãos de miolo de pão, e olhos de geleia de pêssego. Aqui, finalmente, a Risada Espessa, aberta
até as orelhas, e à qual ninguém pode resistir. (Risada Espessa cumprimenta, retorcendo-se toda). [...]
Referências incorporadas ao processo
Outras obras
surgiam durante as experimentações e eram incorporadas ao roteiro de ações que
estruturam o ato performativo, além das obras, leituras e discussões ajudavam-nos
a orientar nossa comunicação, traduzindo nossos pensamentos em cena
espetacular.
Um trecho da
obra dramática de Bertolt Brecht, A Padaria,
foi compartilhado por nossa orientadora, Célida Salume, e posteriormente
inserido na dramaturgia da performance. O trecho intitulado A luta pelo vintém, apresenta um grupo de desempregados que falam
diretamente aos espectadores sobre sua dificuldade para conseguirem seu
alimento e a dura realidade de saber que apenas 1 em 7 desempregados comem.
Brecht toma o espectador como cúmplice da realidade exposta pelos desempregados.
Vocês que
acabaram de comer
Permitam que
mostremos
Nosso incansável
esforço para conseguir algo para comer
A comida mais
modesta já é suficiente.
[...]
Pelas grades no
asfalto
Pessoas sem
nenhuma marca
Ou indicação
“cair”
De repente, sem
ruído, em rápida queda
Pessoas que
caminham ao nosso lado, felizes, caem.
Em meio a
torrente humana
Seguindo seleção
imprecisa,
Seis entre sete
caem, mas o sétimo
Vai ao
refeitório.
Quem de nós será o
próximo?
Contrastante
com o plano criado por Maurice Maeterlinck para suas felicidades-gordas, o plano criado pelo dramaturgo alemão nos
mostra a escassez de tais privilégios, o que ocasiona, sem aviso, a morte de
seus personagens. É justamente o contraste destes planos que nos estimularam a
escolher o tema de nosso trabalho, visando provocar no transeunte um
estranhamento a partir de personagens que se alimentam vaidosamente de nada,
comer o nada para destacar a má distribuição de renda em nosso país e ao mesmo
tempo destacar o quanto estamos habituados com tal situação.
Outro elemento
que incorporamos foi um trecho da música É tão triste cair, do compositor e
sambista Nelson Cavaquinho. Utilizamos a música vinculada ao exercício “CAIR”, prática
onde todos caminham aleatoriamente e um por vez grita a palavra “cair” enquanto
de fato cai. Todos do grupo devem tentar sustentar a pessoa antes que ela tombe
ao chão. Este exercício trabalha o sentido grupal, a percepção e a escuta em
grupo.
Ontem subiste, eu desci / Hoje eu subo, tu
desces / É tão triste cair.
Sorriste da minha dor / Este mundo é uma
escola / Não te esqueças de aprender, meu amor [...]
O exercício
associado à letra da música condensa uma ideia de solidariedade, de destino
reverso e existência do outro. Aponta que, assim como o poder, a ação também é
dinâmica e perpassa campos de reflexão amparados na alteridade e no pensamento
ético.
Macro-roteiro de Ações: “Banquete Do Nada”
Roteiro tecido
a partir de impressões sobre a obra O Pássaro Azul, de Maurice Maeterlinck e o
texto inicial da peça dramática A Padaria, de Bertolt Brecht. As ações foram
pensadas visando uma interação direta com o espaço da Praça da Inglaterra, no
centro comercial de Salvador.
03. TERCEIRA AÇÃO: Esta cena refere-se ao
momento de transição e finalização do ato. O último prato servido poderá ser
trazido pela personagem Luz, que serve em uma baixela (ou algo parecido) um
pássaro azul para cada felicidade. Este momento marca a transição das
“felicidades gordas” para uma tomada de consciência sobre a felicidade simples.
Os performers continuam o andamento da cena em um ritmo desacelerado, retiram a
vedas e iniciam um processo lento de passagem do grotesco ao humano. No momento
da cena a personagem Luz faz-se uma leitura de um recorte do texto de Brecht, A
Padaria;
Bibliografia
CABRAL,
Beatriz Ângela V. Drama como método de ensino. São Paulo. Hucitec: Edições
Mandacaru, 1998.
BRECHT,
Bertolt. A Padaria. In: Bertolt Brecht Teatro Completo 12. São Paulo: Editora
Paz e Terra, 1995.
MAETERLINCK,
Maurice. O Pássaro Azul. Disponível em: https://pt.scribd.com/doc/56980077/Passaro-azul-2
. Acesso em: 05/02/2015.
MALLET,
Roberto. Ação corporal: matéria do ator. Revista do 17º Festival Universitário
de Blumenau Blumenau. Santa Catarina: 2004. (p. 47-48)
Proposta
Curricular do Estado de São Paulo: Arte /
Coord. Maria Inês Fini. – São Paulo: SEE, 2008. (p.47-48)
.
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