domingo, 25 de outubro de 2015

Postado por Nilson Rocha.

Documentário 'Os tabus sociais na percepção de gêneros e papéis sexuais.'.

Esse documentário se faz bastante interessante e fundamental ao trazer questionamentos e conceitos que mobilizam à discussão sobre identidade de gênero, identidade sexual, diversidade e preconceito. Para mim que estou pesquisando 'A comicidade no processo de criação teatral' é muito importante discutir a respeito das opressões a fim de ir entendendo qual a função do cômico na sociedade. Eu estou rindo com o oprimido ou do oprimido? É muito mais fácil fazer piadas homofóbicas, racistas, sexistas e, por aí vai. Difícil e mais inteligente é criar a partir da comédia que sugira transformações sociais e individuais e que não alimente ainda mais a discriminação. 




quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Antropologia Teatral e pré-expressividade: conceitos norteadores para pesquisa de composição corporal


por Fabrícia Dias da Silva
Licencianda em Teatro UFBA


A Antropologia Teatral tem se debruçado a investigar as diversas especialidades disciplinares relacionadas com a representação. Nas obras  A Arte secreta do Ator e A Canoa de Papel o autor e pesquisador Eugênio Barba pretende a partir do estudo do comportamento cênico identificar e comparar princípios comuns existentes na representação, considerando para isso o ator e suas técnicas em um nível transcultural. Segundo Barba, a Antropologia Teatral é:

O estudo do comportamento cênico pré-expressivo que se encontra na base dos diferentes gêneros, estilos e papéis e das tradições pessoais e coletivas […] Em uma situação de representação organizada, a presença física e mental do ator modela-se segundo princípios diferentes dos da vida cotidiana. A utilização extra cotidiana do corpo-mente é aquilo a que se chama “técnica”. (BARBA, 1994. p.23)

Barba aponta que o trabalho do ator concentra três aspectos díspares correspondentes a três níveis de organização. Esses aspectos referenciam um conteúdo individual do ator e sua inter-relação com a sociedade, com a tradição cênica e com técnicas transculturais que constituem o campo pré-expressivo. Assim, os três aspectos citados pelo autor consideram:

1. A personalidade do ator, sua sensibilidade, sua inteligencia artística, sua individualidade social que torna cada ator único e irrepetível.
2.   A particularidade da tradição cênica e do contexto histórico-cultural através dos quais a irrepetível personalidade do ator se manifesta.
3. A utilização do corpo-mente segundo técnicas extra cotidianas baseadas em princípios-que-retornam transculturais. Estes princípios-que-retornam constituem o que a Antropologia Teatral define como o campo da pré-expressividade. (BARBA, 1994. p. 24-25)

Eugênio Barba considera que no processo de representação do ator convive com diversos níveis de organização. No entanto, em  sua pesquisa a cerca da Antropologia Teatral Barba aponta que existe um nível de organização básico que se opera em todos os atores e que seria possível distinguir e trabalhar separadamente os níveis de organização que constituem a expressão do ator (BARBA,1995,p.188). O nível básico referido por Barba é definido como pré-expressivo.

O nível que se ocupa com o como tornar a energia do ator cenicamente viva, isto é, com o como o ator pode tornar-se uma presença que atrai imediatamente a atenção do espectador, é o nível pré-expressivo  e é o campo de estudo da antropologia teatral. (Idem, p.188)

O professor Renato Ferracini em seu livro A arte de não-interpretar como poesia corpórea do Ator, esclarece o conceito de pré-expressividade, colocando-o como um nível onde o ator trabalha princípios para aquisição da presença cênica, objetivando a energia e sua manipulação e o desenvolvimento das ações físicas:

[...] pré-expressivo é aquilo que vem antes da expressão, da personagem construída e antes da cena acabada. É o nível onde o ator produz, e principalmente, trabalha todos os elementos técnicos e vitais de suas ações físicas e vocais. É o nível da  presença, onde o ator se trabalha, independente de qualquer outro elemento externo, quer seja texto, personagem ou cena [...] podemos dizer que existe um nível básico de organização, comum a todos os atores, e mesmo anterior à expressão em si. A esse nível básico de organização poderíamos denominar pré-expressividade.(FERRACINI, 2003, p.87)

A pré-expressividade está contida no nível da expressão ao mesmo tempo que faz-se possível trabalha-la separadamente. Na prática criativa o ator poderá trabalhar os níveis pré-expressivos no sentido de reconhecer e manipular suas energias, presença e os múltiplos níveis de organização que envolvem a representação a partir da seqüência de ações físicas e vocais memoradas pelo corpo-mente, a tal ponto que poderá se repetir essas sequência espontaneamente pelo ator no instante presente da cena. O nível pré-expressivo esta diretamente relacionado à aquisição da presença cênica portanto:

[...]  é o alicerce do trabalho não-interpretativo, pois é nesse nível que o ator busca aprender e treinar uma maneira operativa, técnica e orgânica de articular, tanto suas ações físicas e vocais no espaço como, e principalmente, sua dilatação corpórea, sua presença cênica e a manipulação de suas energias.
Essa busca pode dar-se de duas formas: pelo aprendizado de uma técnica sistematizada e codificada que “ensine e treine” a manipulação desses elementos pré-expressivos, o que significa deparar-se com uma técnica de aculturação, como  é o caso das técnicas orientais de representação; ou em uma busca individual que resulte numa pesquisa dos caminhos que levem a um encontro com suas próprias energias, organizando-as no espaço e no tempo, por meio de uma técnica pessoal de representação. (Idem, p.88)

Barong and Kris Dance, dança Balinesa . A eterna luta de Barong e Rangda (Indonésia).

Barba nos fala que em todas as culturas é possível observar o que ele chama de técnica de aculturação, técnicas corporais específicas que são distintas das usadas na vida cotidiana. Potencialmente, a técnica de aculturação desarticula comportamentos físicos que condicionam o ator a estereótipos e investe para construção de um outro corpo, um corpo consciente de suas referências socioculturais mas que se permite experimentar outra relação de composição e atuação no mundo. Processo de busca  e observação sobre um processo de desconstrução do corpo que exige prontidão.

A técnica de aculturação é a distorção da aparência usual (natural), a fim de recriá-la sensorialmente de uma maneira fresca e surpreendente. No caminho da aculturação é difícil distinguir o ator do bailarino.
O ator-bailarino aculturado manifesta uma qualidade e uma irradiação energética que é presença pronta a ser transformada em dança ou teatro, de acordo com a convenção ou tradição [...] Tanto a via de inculturação quanto a de aculturação ativa o nível pré-expressivo: presença pronta para representar. (BARBA,1995, p.190)

A técnica pessoal de representação é citada dor Ferracini e refere-se a uma técnica formulada pelo próprio ator. Neste contexto insere-se a Antropologia Teatral, que visa impulsionar o ator para princípios embasados em um corpo que busca o extracotidiano, pensado a partir de um processo de “desaculturação”, processo de fuga da corporeidade marcada por estereótipos e maneirismos. A técnica pessoal de representação sugere uma passagem por um treinamento pré-expressivo, visando a qualidade de energia, do movimento, do bios cênico e o estímulo a criação autônoma. Barba afirma que:
  
A análise transcultural mostra que nestas técnicas se podem individualizar alguns princípios que retornam. Esses princípios aplicados ao peso, ao equilíbrio, ao uso da coluna vertebral e dos olhos, produzem tensões físicas pré-expressivas. Trata-se de uma qualidade extra cotidiana de energia que torna o corpo teatralmente “decidido”, “vivo”, “crível”; desse modo, a presença do ator, seu bios cênico, consegue manter a atenção do espectador antes de transmitir qualquer mensagem. Trata-se de um antes lógico, não cronológico. (BARBA, 1994, p.23)


Dundubhi Natyam,  dança tradicional Mohiniyattam. Performance Deepti Omchery Bhalla (Índia).

Um dos elementos principais que podem ser percebidos dentro do campo da pré-expressividade é a relação entre cotidiano e extracotidiano, ou seja, o movimento carregado de elementos que não se vinculam à forma tradicional pela qual vemos os gestos. Eugênio Barba pontua a diferença entre a técnica cotidiana e a técnica extracotidiana.
O nosso corpo é utilizado de maneira substancialmente diferente na vida cotidiana e nas situações de representação. No contexto cotidiano, a técnica do corpo esta condicionada pela cultura, pelo estado social e pelo ofício. Em uma situação de representação existe uma diferença técnica do corpo. Pode-se então distinguir uma técnica cotidiana de uma técnica extracotidiana. (1994, p.30)

No corpo cotidiano nota-se uma postura que acentua-se pelo princípio do esforço mínimo, ou seja, alcançar o rendimento máximo com o mínimo uso de energia. Em outra via, a técnica extracotidiana trabalha com o princípio do uso elevado da concentração de energia, objetivando por vezes o uso máximo de energia para um resultado mínimo do corpo (BARBA,1994, p.31). Em cena a presença física e mental do ator modela-se gerando um novo corpo e por conseqüência uma nova qualidade de energia, energia diferente da cotidiana, dilatada e que engloba todo o corpo. 

Outro elemento fluente na pesquisa de um treinamento pré-expressivo é a energia. Barba cita vários termos que designam energia no teatro oriental e nos dá como exemplo a palavra koshi, que no Japão define a presença do ator em cena e refere-se a uma parte específica do corpo humano: ao caminhar, os atores bloqueiam o quadril, evitando que ele siga os movimentos das pernas. Dois tipos de tensões são criados no corpo, na parte inferior as pernas devem mover-se e na parte superior o tronco e a coluna vertebral força-se para baixo sobre o quadril. Essa ação solicita portanto um equilíbrio peculiar, propondo um tônus muscular diferenciado, a maior concentração da energia e projeta, por consequência, o ator ao a deslocar-se com esforço específico e diferente do qual exerce quando caminha cotidianamente.  O uso do koshi gera tensões que condicionam o corpo do ator a encontrar uma outra maneira de equilibrar-se. Barba sobre a energia nos diz:

A energia do ator é uma qualidade facilmente identificável. É sua potencia nervosa e muscular. O fato de essa potência existir não é particularmente interessante, já que ela existe, por definição, em qualquer corpo vivo. O que é interessante é a maneira pela qual essa potencia é moldada num contexto muito especial: o teatro.[...] Estudar a energia do ator, portanto, significa examinar os princípios pelos quais ele pode modelar e educar sua potência muscular e nervosa de acordo com situações não-cotidianas. (1995, p.74)



 
Kalyanasougandhikam, dança Kathakali, tradicionalmente interpretada apenas por homens (Índia).

A pré expressividade talvez não seja visível em cena, mas é o processo mais intenso do ator, a base sólida da construção, o que existe de mais presente. Detalhes ajustados em seqüência, em que cada subconjunto é também um gráfico com seu começo, seu ápice, seu fim e isto de maneira precisa e fundida através da extracotidianeidade, dos desenhos de energia e um desenvolvimento orgânico.  

Referências 
BARBA, Eugenio & SAVARESE, Nicola. A arte secreta do ator: Dicionário de Antropologia Teatral. Campinas: Hucitec, 1995.
BARBA, Eugenio. A canoa de papel:  Tratado de antropologia teatral. Trad.: Patrícia  Alves. São Paulo: Hucitec, 1994. 
FERRACINI, Renato. A arte de não interpretar como poesia corpórea do ator. São Paulo: Editora da Unicamp, 2003.

* Os vídeos compartilhados foram retirados da internet e desejam uma observação dos estados corporais e criativos que tanto impressionaram Eugênio Barba na tecitura de sua antropologia teatral. 

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Postado por Nilson Rocha.

“Todos esses objetos são muito diferentes, mas todos eles nos sugerem, poder-se-ia dizer, a mesma visão abstrata: a dum efeito que se propaga, aumentando-se a si próprio, de maneira que a causa, insignificante na origem, vem a redundar, por um progresso, necessário, num resultado tão importante como imprevisto.” (BERGSON, 'O Riso - Ensaio sobre o significado do cômico'. 1993. pg. 65).



KATHY: Chandler, o que você está fazendo aqui?

CHANDLER: Eu só queria dizer 'oi'.

KATHY: Oi.

CHANDLER: Ok.

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Postado por Nilson Rocha

LEI 1: Tem possibilidade de se tornar cômica toda a deformidade que uma pessoa normal pode imitar. (BERGSON, ‘O Riso – Ensaio sobre o significado do cômico’, pg. 29).

“Portanto, uma expressão facial risível será a que nos dá a impressão de qualquer coisa parecida com a condensação, a cristalização da mobilidade normal da fisionomia. Um tique consolidado, uma careta que se torna permanente, eis o que nós vemos (...) a expressão cômica do rosto é aquela que não promete mais do que aquilo que patenteia. É uma máscara única e definitiva. Dir-se-ia que toda a vida moral do indivíduo cristalizou naquele sistema. E é por isso que uma cara é tanto mais cômica quanto melhor nos sugere a ideia de qualquer ação simples, mecânica, em que a personalidade ficasse para sempre condensada.” (BERGSON, ‘O Riso – Ensaio sobre o significado do cômico’, pg. 30).




quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Postado por Nilson Rocha

“Eis o primeiro ponto para o qual chamaremos a atenção: não existe cômico fora do que é propriamente humano. Uma paisagem poderá ser bela, graciosa, sublime, insignificante ou feia; mas nunca será risível. Poderemos rir-nos dum animal, mas somente porque surpreendemos nele uma atitude de homem ou uma expressão humana. Poderemos rir-nos dum chapéu, mas do que a gente se ri não é do bocado de feltro ou de palha, mas da forma que os homens lhe deram, do capricho humano que o modelou.” (BERGSON, 'O Riso - Ensaio sobre o significado do cômico'. 1993. pg. 18).



Postado por Nilson Rocha

Começando a fichar hoje !!!

“Lógica a seu modo, até nos seus maiores desvios; metódica na sua loucura; sonhando, admito-o, mas evocando em sonhos visões que são imediatamente aceites e compreendidas por uma sociedade inteira, como é que a fantasia cômica não nos havia de dar o conhecimento dos processos de trabalho da imaginação humana e, mais particularmente, da imaginação social, coletiva, popular? Impregnada de vida real, aparentada com a arte, como não nos havia ela de dizer também a sua palavra sobre a arte e sobre a vida?” (pg. 18).



domingo, 11 de outubro de 2015

Ato Performativo "Banquete do Nada": o corpo como materialidade e outros pré-textos

(Praça da Inglaterra, Comércio, Salvador, dezembro de 2014)

Fabrícia Dias
Licencianda em Teatro


O ato performativo Banquete do Nada aconteceu em dezembro de 2014, na Praça Inglaterra, área comercial de Salvador. O ato foi orientado pela professora Dra. Célida Salume Mendonça e performado pelos bolsistas-pesquisadores do Pibic CELULA, do qual participo a pouco mais de um ano.  

Em Banquete do Nada os performers fazem da arquitetura da cidade seu lugar de comunicação e convidam o público a observar um banquete onde todos comem e se fartam do vazio, da ausência. O trabalho é uma crítica àqueles que já saciados não enxergam os contextos contrários à justa distribuição de recursos. Aspectos mais detalhados da ação estão disponíveis no roteiro de ações no fim deste relato.

Percebo a construção dessa ação amparada em dois aspectos principais. Primeiramente, o texto (obra literária) posto como pré-texto, ou seja, estimulo para a criação a partir de uma dramaturgia original. Em segundo, e de teor igual, a utilização do corpo como materialidade configurando-se como elemento gerador de imagens.

Por materialidade podemos entender o conjunto de materiais propostos para uma investigação cênica cujo papel é impulsionar processos criativos e imagéticos, esses materiais podem ser objetos, músicas, imagens, textos, em fim, uma gama de suportes disparadores da criatividade. Na proposta curricular para o conteúdo de Artes elaborado pelo Estado de São Paulo percebemos como ampla a definição de materialidade e como ela está amalgamada a um contexto simbólico:

[...] Cada material é uma matéria que dá consistência física à obra de arte. O corpo, o movimento do/no corpo, como o mármore, a parafina e o feltro, ou, o som e o silêncio, são matérias que deixam de ser o que são quando sujeitas à prática artística, perdendo sua crueza de matéria pela passagem para o simbólico. Matérias são pele sobre a carne da obra. A materialidade é, portanto, sígnica na medida em que dá sustento, suporta significação, na mesma relação de conteúdo e forma. O estudo da materialidade das produções artísticas nos aproxima da poética dos materiais, do sentido que brota e de que modo brota da própria matéria pela sua simbolização. Matéria, procedimentos com a matéria, suportes e ferramentas estão envolvidos intrinsecamente. [...] (Proposta Curricular do Estado de São Paulo, 2008, p.47)

Por fim, podemos dizer que o corpo do ator/performer também é materialidade, na medida em que sendo o suporte, o estimulo e a forma, é a partir dele e com ele que o artista da cena cria e comunga sua obra. Segundo Roberto Mallet o corpo [do ator] agindo passa a servir de matéria para a criação poética, e por isso a partir das relações de presença, ficcionalidade e corporeidade inscreve seu corpo como espaço de narrativas simbólicas:

A matéria do ator é fundamentalmente seu próprio corpo. As ações que ele realiza conformam esse corpo. Sua matéria é um organismo vivo, composto por tecidos e órgãos, com um cérebro capaz de armazenar e processar um número incalculável de informações. Por não ser exterior ao ator – ao contrario o corpo é próprio ator - essa materialidade está em constante interação com o psiquismo. Um movimento corporal terá ressonâncias na memória e nos sentimentos, assim como uma lembrança ou um pressentimento tem ressonâncias corpóreas. A forma de uma atuação é a composição das diversas ações realizadas. É a estrutura de tensões e relaxamentos musculares, o jogo de vetores e contra-vetores que o ator executa com seu corpo, e que resultam em um texto legível. (MALETT, 2004)

Neste sentido, para a construção da cena partimos da presença do corpo na cena como materialidade propriamente dita - a partir do corpo buscamos estímulos e com o corpo respondíamos as imagens provocadas. Destaco também que o corpo artístico presente na rua (no nosso contexto na zona comercial de Salvador, espaço sufocado pelo fluxo de consumo e de protocolos executivos) já constrói pela sua presença propriamente dita estranhamento no espaço atraído diversos olhares e formulando leituras também diversas sobre sua passagem.

Como disse anteriormente, além da materialidade do corpo, nosso processo criativo conjecturou com a prática de pré-texto aprofundada por Beatriz Cabral em sua obra Drama como Método de Ensino (1998). Adiante exponho outros elementos que foram tomados como estímulo para o ato performativo. 


O pré-texto

Para esse processo utilizamos como pré-texto a peça O Pássaro Azul (1908), do poeta e dramaturgo belga Maurice Maeterlinck. As experimentações foram tecidas a partir do nono quadro do 4º ato, intitulado “No Jardim das Felicidades”. Neste quadro o autor nos apresenta suas Felicidades-Gordas, personagens alegóricas que representam ideias de felicidades que facilmente podem ser referenciadas pelos sete pecados capitais, vistos que o perfil das felicidades transborda, configuram-se supérfluos, sobre tudo, diante das personagens que protagonizam a peça, Mitil e Titil, irmãos que vivem o natal em um contexto de pobreza e saem de casa em busca da verdadeira felicidade, na peça, representada pela delicada imagem de um pássaro. 

O Pássaro Azul é uma fantasia alegórica sobre a busca da felicidade. Segue abaixo breve trecho:

(Ao abrir-se a cortina, desvendasse, no primeiro plano do jardim, uma espécie de sala formada por altas colunas de mármore, entre as quais, dissimulando todo o fundo, se estendem pesadas cortinas de púrpura, pendentes de cordões de ouro. A arquitetura lembra os momentos mais sensuais e suntuosos da Renascença veneziana ou flamenga (Veronese e Rubens). Guirlandas, cornucópias, torsos, vasos, estátuas, dourados enxameiam por toda parte. - Ao meio, maciça e feérica mesa de jaspe e prata dourada, repleta de tochas, cristais, baixelas de ouro e prata, e atulhada de manjares fabulosos. - Em redor da mesa, comem, bebem, urram, cantam, agitam-se, espojam-se ou adormecem entre pratos de caça, frutas fantásticas, ânforas e gomis derrubados, as maiores Felicidades da Terra. São enormes, incrivelmente obesas e rubicundas, cobertas de veludos e brocados, coroadas de ouro, pérolas e pedrarias. Belas escravas trazem continuamente pratos enfeitados e bebidas espumantes. - Música vulgar, hilariante e grosseira, em que dominam os metais. Luz pesada, vermelha, banha a cena. [...]).

TILTIL - Quem são essas senhoras gordas que se divertem e comem tantas coisas boas?
LUZ - São as maiores Felicidades da Terra, aquelas que a gente pode ver a olho nu. É possível, embora pouco provável, que o Pássaro Azul se tenha perdido por um instante no meio delas. Assim, não vire ainda o Diamante.  Por formalidade, vamos primeiro explorar esta parte do salão.
TILTIL - Pode-se chegar perto?
LUZ - Certamente. Não são más, embora vulgares, e geralmente mal-educadas.
[...]
TILTIL - Parecem tão satisfeitas, tão felizes!  Como gritam! E riem! E cantam! Acho que já nos viram.

De fato, umas doze Felicidades, das maiores, se levantaram da mesa e caminham penosamente, segurando os ventres, em direção ao grupo das crianças.

LUZ - Não tenha medo, são muito acolhedoras. Provavelmente vão convidá-lo para jantar.  Não aceite.  Não aceite nada, para não se esquecer de sua missão.
TILTIL - O quê?  Nem um docinho? Eles têm um ar tão gostoso, tão fresco!
LUZ - São perigosos e afrouxariam sua vontade. Recuse delicadamente, mas com firmeza.  Aqui estão.
FELICIDADE GORDA (estende a mão a Tiltil) - Bom dia, Tiltil.
TILTIL (espantado) - A senhora me conhece?  Quem é a senhora?
FELICIDADE GORDA - Sou a mais gorda entre as Felicidades, a Felicidade-de-ser-rico. Em nome de minhas irmãs, peço a você e a sua família que venham honrar o nosso jantar infinito. Ficarão no meio do que há de melhor entre as verdadeiras e grandes Felicidades deste mundo.  Permitam que lhes apresente as principais dentre nós. Aqui está minha nora, a Felicidade-da-vaidade-satisfeita, cujo rosto é tão graciosamente balofo. (A Felicidade-da-vaidade-satisfeita cumprimenta com ar protetor.) Aqui estão a Felicidade-de-beber-quando-não-se-tem-mais-sede, e a Felicidade-de-comer-quando-não-se-tem-mais-fome, que tem pernas de macarrão. (Cumprimentam, cambaleantes) Aqui, a Felicidade-de-ignorar-tudo, surda como uma porta, e a Felicidade-de-não-compreender-nada, cega como uma toupeira.  Esta é a Felicidade-de-não-fazer-nada, e a outra, a Felicidade-de-dormir-mais-do-que-o-necessário; tem mãos de miolo de pão, e olhos de geleia de pêssego.  Aqui, finalmente, a Risada Espessa, aberta até as orelhas, e à qual ninguém pode resistir. (Risada Espessa cumprimenta, retorcendo-se toda). [...]

Referências incorporadas ao processo

Outras obras surgiam durante as experimentações e eram incorporadas ao roteiro de ações que estruturam o ato performativo, além das obras, leituras e discussões ajudavam-nos a orientar nossa comunicação, traduzindo nossos pensamentos em cena espetacular.


Um trecho da obra dramática de Bertolt Brecht, A Padaria, foi compartilhado por nossa orientadora, Célida Salume, e posteriormente inserido na dramaturgia da performance. O trecho intitulado A luta pelo vintém, apresenta um grupo de desempregados que falam diretamente aos espectadores sobre sua dificuldade para conseguirem seu alimento e a dura realidade de saber que apenas 1 em 7 desempregados comem. Brecht toma o espectador como cúmplice da realidade exposta pelos desempregados.

Vocês que acabaram de comer
Permitam que mostremos
Nosso incansável esforço para conseguir algo para comer
A comida mais modesta já é suficiente.
[...]
Pelas grades no asfalto
Pessoas sem nenhuma marca
Ou indicação “cair”
De repente, sem ruído, em rápida queda
Pessoas que caminham ao nosso lado, felizes, caem.
Em meio a torrente humana
Seguindo seleção imprecisa,
Seis entre sete caem, mas o sétimo
Vai ao refeitório.
Quem de nós será o próximo?

Contrastante com o plano criado por Maurice Maeterlinck para suas felicidades-gordas, o plano criado pelo dramaturgo alemão nos mostra a escassez de tais privilégios, o que ocasiona, sem aviso, a morte de seus personagens. É justamente o contraste destes planos que nos estimularam a escolher o tema de nosso trabalho, visando provocar no transeunte um estranhamento a partir de personagens que se alimentam vaidosamente de nada, comer o nada para destacar a má distribuição de renda em nosso país e ao mesmo tempo destacar o quanto estamos habituados com tal situação. 

Outro elemento que incorporamos foi um trecho da música É tão triste cair, do compositor e sambista Nelson Cavaquinho. Utilizamos a música vinculada ao exercício “CAIR”, prática onde todos caminham aleatoriamente e um por vez grita a palavra “cair” enquanto de fato cai. Todos do grupo devem tentar sustentar a pessoa antes que ela tombe ao chão. Este exercício trabalha o sentido grupal, a percepção e a escuta em grupo.

Ontem subiste, eu desci / Hoje eu subo, tu desces / É tão triste cair.
Sorriste da minha dor / Este mundo é uma escola / Não te esqueças de aprender, meu amor [...]

O exercício associado à letra da música condensa uma ideia de solidariedade, de destino reverso e existência do outro. Aponta que, assim como o poder, a ação também é dinâmica e perpassa campos de reflexão amparados na alteridade e no pensamento ético.


Macro-roteiro de Ações: “Banquete Do Nada”

Roteiro tecido a partir de impressões sobre a obra O Pássaro Azul, de Maurice Maeterlinck e o texto inicial da peça dramática A Padaria, de Bertolt Brecht. As ações foram pensadas visando uma interação direta com o espaço da Praça da Inglaterra, no centro comercial de Salvador.


01.      PRIMEIRA AÇÃO: Esta ação refere-se a chegada dos performers no espaço em um processo com três instantes distintos. No primeiro instante varrem a praça coletivamente, num movimento convergente das extremidades para o centro da praça, enquanto varrem cantam a canção de Nelson Cavaquinho “É tão triste cair” (ver abaixo); depois recolhem o lixo. Após, ambientam o espaço com defumadores e flores azuis de papel (as flores completam espaços da natureza em desfalque. Ex: portal ou um troco sem vida). Toda a ação é feita com distanciamento atoral e com a participação de todos. Depois iniciam uma caminhada por um espaço demarcado da praça por uma lona azul que demarca o espaço/área de jogo, interagem com os transeuntes a partir do exercício do “cair” e da frase do texto de Brecht “Pessoas que caminham ao nosso lado, felizes, caem”. Outras frases podem ser incorporadas a caminhada.


02.      SEGUNDA AÇÃO: Esta ação refere-se à cena específica do banquete. Um performer toca um sino de metal, todos os que varriam vestem seus figurinos assumindo personagens e exibindo máscaras corporais correspondentes às felicidades citadas por Maeterlinck no Pássaro Azul. Após todos vestidos e instalados no espaço, o performer toca novamente o sino convidando as felicidades para um banquete. O performer apresenta todas as felicidades como se fosse um desfile de celebridades, cada uma recebe uma placa com a identificação de seu status (invejosa, vaidosa, gulosa...). Após apresentadas, todas se sentam e o performer serve os pratos brancos vazios, talheres e um guardanapo de pano. Toca-se novamente o sino anunciando que podem comer a vontade o primeiro prato – a cada novo prato servido toca-se o sino e os pratos anunciados são correspondentes a trechos do nono quadro da obra de Maeterlinck (ex: um manjar de doce crueldade). As felicidades demonstram muita satisfação e desejo sobre o banquete, elegantemente estendem os guardanapos e vendam-se. Ali comem um banquete imaginário, com os olhos vendados. As felicidades são exageradas e podem ser grotescas, estranhas, rudes, sarcásticas.

03.      TERCEIRA AÇÃO: Esta cena refere-se ao momento de transição e finalização do ato. O último prato servido poderá ser trazido pela personagem Luz, que serve em uma baixela (ou algo parecido) um pássaro azul para cada felicidade. Este momento marca a transição das “felicidades gordas” para uma tomada de consciência sobre a felicidade simples. Os performers continuam o andamento da cena em um ritmo desacelerado, retiram a vedas e iniciam um processo lento de passagem do grotesco ao humano. No momento da cena a personagem Luz faz-se uma leitura de um recorte do texto de Brecht, A Padaria;


Motivamos a partir do contato com o pássaro a transformação das personagens e do espaço. Quando a Luz coloca o pássaro nos pratos das felicidades estas despertam, retiram as vendas dos olhos e criam uma relação com aquele objeto de encantamento e brincadeira. Após este momento instalamos na praça enfeites, linhas, macramê, em fim, tecemos um espaço lúdico e fantasioso – um presente de natal (poderemos utilizar frases do “Pássaro Azul” nesta ação).  Podemos finalizar com uma ação no contexto de coralidade com todos os performers encontrando-se no centro da praça e juntos no exercício do “cair” não caem e finalizam sustentando-se pelos apoios dos ombros.


Bibliografia
CABRAL, Beatriz Ângela V. Drama como método de ensino. São Paulo. Hucitec: Edições Mandacaru, 1998.
BRECHT, Bertolt. A Padaria. In: Bertolt Brecht Teatro Completo 12. São Paulo: Editora Paz e Terra, 1995.
MAETERLINCK, Maurice. O Pássaro Azul. Disponível em: https://pt.scribd.com/doc/56980077/Passaro-azul-2  . Acesso em: 05/02/2015.
MALLET, Roberto. Ação corporal: matéria do ator. Revista do 17º Festival Universitário de Blumenau Blumenau. Santa Catarina: 2004. (p. 47-48)
Proposta Curricular do Estado de São Paulo: Arte /  Coord. Maria Inês Fini. – São Paulo: SEE, 2008. (p.47-48)

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Postado por Nilson Rocha.