quinta-feira, 26 de setembro de 2013

A Pequena Coleção por Joseane Santana


Diário de uma Pesquisadora

A experiência de ver, o momento de contemplar, um movimento curioso, um método que não é formula, uma ideia que surge, floresce e depois frutifica nas nossas cabeças.

A PEQUENA COLEÇÃO DE TODAS AS COISAS
Direção: Dani Lima
Intérpretes-criadores: Carla Stank, Laura Samy, Lindon Shimizu, Renato Linhares

Espetáculo de dança contemporânea apresentado no dia 25 de setembro de 2013 na Sala Principal do Teatro Vila Velha pela programação do Festival Internacional de Arte Cênica (Fiac).
Poucas são as palavras para descrever tantas sensações, e seguirei dessas poucas palavras para descrever o que vi, senti e vivi na tarde dessa quarta-feira quente e cansativa em Salvador.
Reencontro – minha primeira palavra, escolho ela porque foi bom rever minha colega de trabalho e turma Érica Lopes, tocar aquele imenso casulo e saber que ela está bem. Foi bom reencontrar Telma Gualberto, que também estava por lá, trabalhando, ajudando na construção daquele espetáculo. Enfim, foi muito bom também reencontrar com alguns objetos que a muito eu não via, todos ali espalhados naquele palco reformulado para receber a magia da arte.
Bagunça – minha segunda palavra, e essa é extremamente pessoal, meu dia foi muito bagunçado, e encontrar todas aquelas coisas espalhadas no palco me incomodou, para que o leitor entenda, no inicio do espetáculo os quatro atuantes – os denomino assim, porque não os vejo apenas como dançarinos, e como eles não se denominam atores, assim faço para facilitar a minha descrição –, estavam espalhados no meio de uma bagunça, formada por 120 objetos diversos, dos quais muitos temos em nossa casa, eram tantos que fico até confusa em descrever.
De repente em movimentos dos mais variados, os objetos começam a tomar outro rumo e ganhamos fileiras, e de cada objeto vai surgindo uma história, vai surgindo um formato de se contar uma história, os corpos vão fazendo formas, os objetos vão formando contornos, os atuantes vão ganhando corpos, tons de voz e aos poucos começam a surgir desejos, o desejo de cada atuante forma um grupo de objetos, denominados kits, por exemplo, tínhamos o kit na casa de socorro, na casa da árvore, o kit deserto, e muitos outros.
E as músicas intervinham como mãos nas formas e contornos da história, e das brigas ao amor tudo era embalado por um som, sons que vinham do palco por meio eletrônico e microfones, ou pelo batuque composto por objetos que já estavam ali, como um tapete, uma caixa e uma lixeira; ou mesmo por meio da própria mesa de som, que dialogava perfeitamente com todos os movimentos e objetos.
E num sopro as cores se separam, cada objeto ganha seu espaço e um vão no meio do palco é aberto e eis que surgem super-heróis, novos personagens, novos desejos e novas histórias, os corpos criam movimentos dos mais simples aos mais desenvolvidos, eles brigam, brincam, sorriem e choram, eles formam um corpo único que nos encanta, que se mistura com os objetos que fecundam num espetáculo envolvente.
Pronto, as bagunças foram arrumadas, do meio para o final do espetáculo eu ri, chorei, e fixei o olhar no palco, tentava reparar o uso de cada objeto, e no final, fui surpreendida, após um solo encantador de uma das atuantes, ganhamos um espetáculo a parte, e ai vêm a minha última palavra: Surpresa.
Talvez, está palavra fosse suficiente para compor todo esse escrito, porque eu não esperava que aquele amontoado de coisas me provocasse tanto, me fizesse ter vontade de brincar. E, no fim um data show é ligado, e famílias surgem a partir de objetos menores que dão espaço para novas histórias e que belissimamente nos encaminham ao fim.
Poético, romântico e simples. Das cores verde, vermelho, branco, marrom, azul e amarelo que separavam os grupos de objetos pelo espaço monto um imenso arco – íris, uma floresta, ou o gostoso quintal de casa, onde eu costumava brincar de cozinheira. Retrocedi, viajei no tempo e ao fim do espetáculo me senti no futuro, no mais distante alento das cores.

por Joseane Santana

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