PEQUENA COLEÇÃO DE
TODAS AS COISAS
Cia. Dani Lima – RJ
25 de setembro de 2013,
16h
Teatro Vila Velha
A
subversão não está na forma, está no olhar.
Brinquedo.
É a primeira coisa que me vem à mente ao pensar no espetáculo. De
fato, foi isso o que senti durante quase todo o tempo da peça. A
montagem me reportou aos brinquedos da infância, à leveza, à
alegria, ao faz de conta.
A maneira
de se relacionar com os objetos dispostos no palco sem
necessariamente se prender aos seus usos e classificações
cotidianos, me levou ao mundo infantil onde qualquer coisa pode ser
tudo o que quisermos. As crianças pareciam estar bastante
identificadas com aquele acontecimento também.
Muitas
vezes percebi durante a apresentação a presença de jogos que eu já
tinha selecionado para utilizar na oficina, que será realizada no meu estágio deste semestre, com um grupo do quarto ano do ensino fundamental no Centro Municipal de Educação Infantil Cid Passos (Coutos - Salvador/BA), e que
embasará a pesquisa do meu Trabalho de Conclusão de Curso. Por exemplo, “Quando eu for pra lua” e jogos
de frases com os objetos.
Alguns
dos educandos com os quais trabalharei em breve estavam lá,
participando da formação de plateia do FIAC. Aproveitei pra já
começar uma conversa com alguns e comentar que também faremos um
trabalho com objetos. Certamente essa experiência será de grande
valia na oficina.
O
espetáculo se classifica como “dança infantil”, e me questiono
essa categorização: o que define até onde vai a dança e começa o
teatro ou vice-versa? No bate-papo após a apresentação, Dani Lima
começou esse assunto com as crianças, mas a demanda do público por
realizar mais perguntas não permitiu o desenvolvimento do tema. Ela
chegou a dizer que o espetáculo diferia porque não tinha história
(Teatro necessariamente tem que ter história para ser teatro?!
Pensei. Ah, o nosso bom e velho modelo dramático… Ah, meu TCC…
rs), mas o assunto não pôde ser desenvolvido. Achei a proposta bem
parecida com o que estou pretendendo fazer no estágio e que
enquadrei como teatro. Talvez uma sutil diferença se coloque na
forma e ênfase dada ao trabalho corporal, mas ainda não estou
segura disso.
Busquei,
durante todo o tempo, encontrar as relações com a minha proposta de
estágio e, por um tempo, fiquei presa à busca pela observação dos
contatos não cotidianos com os objetos nas ações realizadas em
cena. Mas as cenas mesclavam o faz de conta infantil com os usos
padrões das coisas. Até que finalmente eu percebi (eu também já
modelada, apesar de ciente) que a subversão não necessariamente
está na forma, mas no olhar.
A
encenação fazia constantemente agrupamentos de coisas, coleções.
E como coleções, utilizava critérios, sentidos lógicos: cores,
usos, preferências, nomes começados com a mesma letra e até kits
para as mais variadas coisas, de sobrevivência na casa da árvore a
salvamento de ursinho de pelúcia. Mas, ainda que em algum momento
resolvessem fazer a classificação mais óbvia e usual, meu olhar já
estaria contaminado do estranhamento, da ludicidade, da abertura às
possibilidades.
Parece-me
que o processo criativo deles é mais focado no corpo que nos objetos
em si. Dani Lima chegou a dizer que realizaram muitos jogos centrados
em ações, verbos e movimentos e, como ilustração, realizou um
jogo em que um diz um verbo, por exemplo, abrir, e todos vão falando
possibilidades com abrir, exemplos: abrir a boca, abrir uma porta,
abrir a cabeça, abrir um pacote de biscoito. Tenho a impressão de
que a classificação dos objetos que resultou nos diversos
agrupamentos utilizados em cena também foram provenientes de jogos.
Dani
explicou que essa peça é uma adaptação para crianças, realizada
em dois meses e meio de processo, de um espetáculo adulto da Cia,
chamado Pequeno Inventário de Lugares Comuns. O processo do
espetáculo adulto está registrado no blog
http://pequenoinventriodelugarescomuns.blogspot.com.br/
.
por Érica Lopes
Nenhum comentário:
Postar um comentário