domingo, 23 de novembro de 2014

PERFORMANCE “CEGOS” – OFICINA INTERVENÇÃO URBANA COM DESVIO COLETIVO


Fabrícia Dias
Licencianda em Teatro da UFBA

Entre os dias 14 e 16 em outubro deste ano participei da Oficina Intervenção Urbana com o Desvio Coletivo, uma oferta do Projeto Palco Giratório que integrou a 10ª Mostra Sesc de Artes “Aldeia Pelourinho”. O resultado da oficina resultou na construção e  instalação da Performance “Cegos” pelas ruas do Centro Histórico de Salvador, uma experiência que nos desafia a refletir sobre as diversas formas de cegueira na sociedade. Um corpo que não enxerga politicamente, socialmente ou simbolicamente? Quantas cegueiras cabem em uma existência?

Thomas Fessel   
O Desvio Coletivo nasce em 2011 como resultado do projeto de pesquisa “A Performance na aprendizagem da encenação”. O projeto é coordenado pelo professor e diretor Marcos Bulhões e iniciou-se em parceria com outros projetos de extensão e pesquisa em performance da USP e UNESP. Conforme descrito no site oficial, as ações do coletivo buscam “sistematizar os princípios e procedimentos de aprendizagem e a criação da cena performativa, desenvolvendo investigações práticas relacionadas aos conceitos de ação performativa, coralidade, ação relacional, jogo performativo e dramaturgia cênica” (http://www.desviocoletivo.com/p/sobre21.html). Neste sentido, percebemos que interessa ao Desvio Coletivo uma relação mais estreita entre pesquisa e produção estética e poética, considerando sempre o público e as formas de transmissão do fazer com experiência.

A partir dessas prerrogativas o Desvio Coletivo propôs a oficina Intervenção Urbana, processo que a partir de uma breve formação teórico-reflexiva e de experimentações práticas pretende a imersão dos seus participantes no universo performático, ampliando uma percepção política da arte e sua relação com os espaços que ocupa.

A oficina em seu primeiro dia foi dedicada a troca de saberes voltados para o contexto histórico, principais trabalhos e artistas da performance urbana no mundo; também destacou-se quais são os principais representantes e influências da performance contemporânea no Brasil, de forma que os trabalhos e artistas citados constituem figuras importantes e referenciais no processo criativo do Desvio Coletivo. sando alguns slides, imagens e vídeos uma das integrantes do coletivo, Priscilla Toscano, citou termos orientadores do estudo da performance cujo olhar se atém nas relações com os espaços urbanos tais como intervenção urbana, street art, instalações e site specific. Também o destaque de nomes como Gunther Brus, Allan Kaprow’s, Valie Export, Marina Abramovic Yves Klein e os contemporâneos, Mark Jenkins, Alicia Frames, Yolanda Domínguez, Charlotte Prier, Artur Barrio, Flávio de Carvalho, Lygia Pape e Eduardo Srur.
A introdução teórica também abriu espaço para situar o trabalho do coletivo e seu percurso no panorama das artes performativas de São Paulo. Priscilla Toscano salientou a relação profunda do trabalho com os espaços urbanos apontando que a intervenção urbana lida diretamente com a interferência da obra na cidade, da obra no sujeito/transeunte e da arquitetura do espaço. Também, aponta a performer em sua conferência, que “a rua é o espaço do medo, do masculino, do bélico, dos atravessamentos”, logo, o atravessamento da intervenção performática em ambientes urbanos cria um enfrentamento contrastante com a realidade cotidiana da cidade. A performance focaliza pontos espaciais e simbólicos que são característicos dos espaços e indivíduos, pela subversão de status e imagens contribui para o deslocamento do sujeito de suas zonas de conforto social, estimulando-o a tomada de consciência sobre estes espaços e seus agentes.
O segundo dia de oficina foi estruturado e conduzido pelo professor Marcos Bulhões que propôs práticas corporais relacionais e investigativas. Iniciamos o processo com uma massagem coletiva divididos em pequenos grupos e na sequência iniciamos deitados um processo de aproximação dos corpos enfatizando os toques, a presença, o encontro de um corpo com o outro, seus pesos, texturas, diálogos. Aos poucos os participantes da oficina, em sua grande maioria atores e estudantes de teatro e dança, foram estabelecendo um jogo de partituras corporais que evoluíram ao final para o contact improvisation, corpos propositivos e afetivamente afetados.

Depois iniciamos uma pesquisa sobre ritmos de caminhada enfatizando no corpo qualidades de movimentos que trouxessem o corpo para um estado de lentidão contínua, um corpo que se movimenta a um tempo desacelerado e num fluxo contínuo, um corpo que rompe o espaço, prolongando-se e interrompendo o ritmo cotidiano dos gestos; interrompe o pulso cotidiano do corpo-vivo-acelerado característico dos corpos urbanizados. Esta caminhada nos possibilitou também uma pesquisa sobre o estado de presença, possível quando o corpo interrompe o tempo cronológico, quando o corpo assume um processo representativo e não-interpretativo de ações: o estado de presença convida um corpo presente para se instaurar. Percebo que a presença reside no instante-já (como bem coloca Clarice Lispector em sua obra Água Viva), no instante mesmo do movimento vivido, contrário ao instante passado em que habita o corpo treinado do ator.

Nesta caminhada já tomávamos consciência do contexto de coralidade, nos aproximamos e nos agrupamos em um único bloco que se deslocava de forma uníssona pelo espaço e também já observávamos ali como é poderosa a imagem/presença de tantos corpos empenhados em uma única ação – o coro reforça uma ideia, uma atmosfera, um símbolo que aparentemente único se desdobrará em leituras plurais sobre sua forma. Tal qual na tragédia grega, o choros manifesta um comentário público ou consciência da parte ou todo, o coro pode representar a própria cidade (polis). Por fim, o coro é um personagem coletivo que pode moderar e estimular discursos que interferem diretamente na trama e no destino do protagonista. Tal qual no coro grego, o coro da intervenção urbana imprime seu discurso na cidade e no caso dos aspectos de coralidade estimulado pelo Desvio Coletivo o discurso do coro é aberto aos sentidos produzidos e valores agregados pelo público que o observa.


Por fim, saímos no fim da jornada às ruas do centro histórico de Salvador para um primeiro reconhecimento do percurso que faríamos no dia anterior. Nossa saída foi orientada pela ideia de coro, unidade, alternância de liderança e proposições de adequação aos espaços. Aproveitamos também para testarmos ritmos de caminhadas, energias e observar a recepção do público/transeunte sobre a presença do coro na rua.

Performance “Cegos” – da argila ao gestus social

O terceiro dia da oficina foi condicionado na preparação e exibição da performance “Cegos”. Integraram a intervenção atores e estudantes da cidade e os membros de atuadores do Desvio Coletivo.

O processo inicial consistiu no preparo da argila, pasta homogênea criada da mistura de argila e água, que cobriu os corpos e figurinos dos performers trazendo uma unidade estética para o coro. A argila funciona como uma espécie de segunda-pele e em associação aos figurinos -  trajes do contexto empresarial, tal como o terno e o tailleur - cria a imagem de um novo ser humano; ele se insere na sociedade capitalista/financeira da cidade ao mesmo tempo em que destoa da humanidade compreendida, pois caminha sob uma epiderme petrificada e num tempo diferente dos transeuntes que o observa. A camada de argila que cobre os tecidos deseja revelar a qualidade hermética e estagnada que o status do trabalho condicionou o homem/mulher modernos. Revela um lugar na sociedade ocupado pela submissão, pela alienação financeira e política – por contradição este mesmo lugar costuma representar nossas necessidades e desejos coletivos, não reforçando critérios de igualdade e coletividade, mas antes ampliando estruturas de individuação e opressão.

Compunha também a imagem petrificada uma faixa de gaze sobre os olhos. Deste signo nasceu nossa cegueira física. De fato, a faixa sobre os olhos já impedia nossa visão periférica e focal, mas, enquanto imagem, também reforçava outras possibilidades da cegueira que não se restringia a uma cegueira visual, mas simbólica vivida pelo individuo da cidade: uma cegueira política e social. O Desvio Coletivo define a performance no site do trabalho como “uma obra aberta a diferentes leituras: a redução da nossa existência à função produtiva e ao consumo, o excesso de trabalho, o aprisionamento e a petrificação da vida, a automatização do cotidiano, a degeneração ética que se alastra no atual estágio da sociedade” (http://www.desviocoletivo.com/p/performance-urbda-cegos.html).

Esses corpos argilosos saíram às ruas e percorreram lugares na cidade que são representativos de poder e ordem como agências bancárias, repartições públicas, espaços comerciais e órgão reguladores. Sempre que o coro de cegos encontrava-se com estes espaços instalavam seus corpos adequadamente pelas dimensões arquitetônicas; integravam-se ao espaço compondo com ele um novo signo. Os corpos pareciam também produções artísticas, esculturas tridimensionais, ornamentos arquitetônicos. Esse jogo de adequação ao espaço reflexiona os usos que fazemos destes espaços políticos e se realmente estamos inseridos no contexto de acesso e empoderamento dos seus significados.



Outro importante aspecto da intervenção urbana é a reprodução de alguns códigos que são feitos pelos performers em referência ao espaço que se instala, por exemplo, diante das bandeiras nacional e estadual fizemos o gesto característico de saudação à Adolf Hitler durante a Alemanha nazista e diante da prefeitura da cidade uma reverência muçulmana. Ao propormos estas ações percebo que lidamos diretamente com o gestus social, termo endossado pelo diretor alemão Bertolt Brecht. Vanja Poty identifica o propósito do gestus social apontando que:

“[...] a partir do gestus se identifica uma classe (macro), que ator utiliza também alguns gesten (ilustrativos, substitutivos de qualquer outra forma de comunicação), mas não gestikulieren (movimentos para explicitar ou frisar a fala). O gestus não busca o estereótipo, e sim o reconhecimento de uma condição social, de uma profissão, nacionalidade, de valores ou convicções do personagem, ou seja, atitudes-padrão, que irão se consagrar como representação de um povo e de uma época”. (POTY, 2013)

Neste sentido, na performance “Cegos” proposta pelo Desvio Coletivo percebo uma estreita conexão entre o movimento do coro e seus elementos fundamentais (corpo petrificado, contexto de trabalho, cegueira simbólica) como uma expressão concreta de um gestus, e nesse sentido um gestus que representa um status e um ideal social alienado em si mesmo. Sobre a relação de gestus e trabalho Brecht reflete:

“[...] O gesto de trabalhar é sem dúvida um gesto social, pois a atividade humana orientada no sentido de um domínio sobre a natureza é uma realidade social, uma realidade do mundo dos homens”. (POTY apud Brecht, 2005, p.107)

As reverberações da experiência proporcionada pela oficina com o Desvio Coletivo e posteriormente na participação na performance “Cegos” estimulam inquietações sobre o papel sociopolítico da arte na rua, sua relação com o imaginário coletivo e suas potencialidades no processo de formação do ator/performer. A experiência lida com o senso crítico, com a reflexão sobre o entorno que vivemos e sobre a própria vida que deve constantemente ser confrontada com seus opostos, seja pela observação da arte ou pela participação dentro de suas proposições poéticas.

Bibliografia
POTY, Vanja. Conceito de gestus e técnica de construção. Revista Performatus. Ano 01. N. 06. Set. 2013. Acesso em: 08/11/2014. Disponível em: http://performatus.net/wp-content/uploads/2013/08/Gestus-%C2%AB-Performatus.pdf
BRECHT, Bertold. Estudos sobre Teatro. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 2005. 

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