Fabrícia Dias
Licencianda
em Teatro da UFBA
Entre os dias 14 e 16 em outubro
deste ano participei da Oficina
Intervenção Urbana com o Desvio
Coletivo, uma oferta do Projeto Palco Giratório que integrou a 10ª Mostra Sesc
de Artes “Aldeia Pelourinho”. O resultado da oficina resultou na construção e instalação da Performance “Cegos” pelas ruas
do Centro Histórico de Salvador, uma experiência que nos desafia a refletir
sobre as diversas formas de cegueira na sociedade. Um corpo que não enxerga
politicamente, socialmente ou simbolicamente? Quantas cegueiras cabem em uma
existência?
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| Thomas Fessel |
O Desvio Coletivo nasce em 2011 como
resultado do projeto de pesquisa “A
Performance na aprendizagem da encenação”. O projeto é coordenado pelo
professor e diretor Marcos Bulhões e iniciou-se em parceria com outros projetos
de extensão e pesquisa em performance da USP e UNESP. Conforme descrito no site
oficial, as ações do coletivo buscam “sistematizar
os princípios e procedimentos de aprendizagem e a criação da cena performativa,
desenvolvendo investigações práticas relacionadas aos conceitos de ação
performativa, coralidade, ação relacional, jogo performativo e dramaturgia
cênica” (http://www.desviocoletivo.com/p/sobre21.html). Neste sentido, percebemos que
interessa ao Desvio Coletivo uma relação mais estreita entre pesquisa e
produção estética e poética, considerando sempre o público e as formas de
transmissão do fazer com experiência.
A partir dessas prerrogativas o
Desvio Coletivo propôs a
oficina Intervenção Urbana, processo
que a partir de uma breve formação teórico-reflexiva e de experimentações
práticas pretende a imersão dos seus participantes no universo performático,
ampliando uma percepção política da arte e sua relação com os espaços que
ocupa.
A oficina em seu primeiro dia foi
dedicada a troca de saberes voltados para o contexto histórico, principais
trabalhos e artistas da performance urbana no mundo; também destacou-se quais
são os principais representantes e influências da performance contemporânea no
Brasil, de forma que os trabalhos e artistas citados constituem figuras
importantes e referenciais no processo criativo do Desvio Coletivo. sando
alguns slides, imagens e vídeos uma das integrantes do coletivo, Priscilla
Toscano, citou termos orientadores do estudo da performance cujo olhar se atém
nas relações com os espaços urbanos tais como intervenção urbana, street art, instalações e site specific. Também o destaque de
nomes como Gunther Brus, Allan Kaprow’s, Valie Export, Marina Abramovic Yves
Klein e os contemporâneos, Mark Jenkins, Alicia Frames, Yolanda Domínguez,
Charlotte Prier, Artur Barrio, Flávio de Carvalho, Lygia Pape e Eduardo Srur.
A introdução teórica também abriu
espaço para situar o trabalho do coletivo e seu percurso no panorama das artes
performativas de São Paulo. Priscilla Toscano salientou a relação profunda do
trabalho com os espaços urbanos apontando que a intervenção urbana lida
diretamente com a interferência da obra na cidade, da obra no
sujeito/transeunte e da arquitetura do espaço. Também, aponta a performer em sua conferência, que “a rua
é o espaço do medo, do masculino, do bélico, dos atravessamentos”, logo, o
atravessamento da intervenção performática em ambientes urbanos cria um
enfrentamento contrastante com a realidade cotidiana da cidade. A performance
focaliza pontos espaciais e simbólicos que são característicos dos espaços e
indivíduos, pela subversão de status e
imagens contribui para o deslocamento do sujeito de suas zonas de conforto
social, estimulando-o a tomada de consciência sobre estes espaços e seus
agentes.
O segundo dia de oficina foi
estruturado e conduzido pelo professor Marcos Bulhões que propôs práticas
corporais relacionais e investigativas. Iniciamos o processo com uma massagem
coletiva divididos em pequenos grupos e na sequência iniciamos deitados um
processo de aproximação dos corpos enfatizando os toques, a presença, o
encontro de um corpo com o outro, seus pesos, texturas, diálogos. Aos poucos os
participantes da oficina, em sua grande maioria atores e estudantes de teatro e
dança, foram estabelecendo um jogo de partituras corporais que evoluíram ao
final para o contact improvisation,
corpos propositivos e afetivamente afetados.
Depois iniciamos uma pesquisa sobre
ritmos de caminhada enfatizando no corpo qualidades de movimentos que
trouxessem o corpo para um estado de lentidão contínua, um corpo que se
movimenta a um tempo desacelerado e num fluxo contínuo, um corpo que rompe o
espaço, prolongando-se e interrompendo o ritmo cotidiano dos gestos; interrompe
o pulso cotidiano do corpo-vivo-acelerado característico dos corpos
urbanizados. Esta caminhada nos possibilitou também uma pesquisa sobre o estado
de presença, possível quando o corpo interrompe o tempo cronológico, quando o
corpo assume um processo representativo e não-interpretativo de ações: o estado
de presença convida um corpo presente para se instaurar. Percebo que a presença
reside no instante-já (como bem coloca Clarice Lispector em sua obra Água Viva), no instante mesmo do
movimento vivido, contrário ao instante passado em que habita o corpo treinado
do ator.
Nesta
caminhada já tomávamos consciência do contexto de coralidade, nos aproximamos e nos agrupamos em um único bloco que
se deslocava de forma uníssona pelo espaço e também já observávamos ali como é
poderosa a imagem/presença de tantos corpos empenhados em uma única ação – o
coro reforça uma ideia, uma atmosfera, um símbolo que aparentemente único se
desdobrará em leituras plurais sobre sua forma. Tal qual na tragédia grega, o choros manifesta um comentário público
ou consciência da parte ou todo, o coro pode representar a própria cidade (polis). Por fim, o coro é um personagem
coletivo que pode moderar e estimular discursos que interferem diretamente na
trama e no destino do protagonista. Tal qual no coro grego, o coro da
intervenção urbana imprime seu discurso na cidade e no caso dos aspectos de coralidade estimulado pelo Desvio
Coletivo o discurso do coro é aberto aos sentidos produzidos e valores
agregados pelo público que o observa.
Por fim,
saímos no fim da jornada às ruas do centro histórico de Salvador para um
primeiro reconhecimento do percurso que faríamos no dia anterior. Nossa saída
foi orientada pela ideia de coro, unidade, alternância de liderança e
proposições de adequação aos espaços. Aproveitamos também para testarmos ritmos
de caminhadas, energias e observar a recepção do público/transeunte sobre a
presença do coro na rua.
Performance “Cegos” – da argila ao gestus
social
O terceiro dia da oficina foi
condicionado na preparação e exibição da performance “Cegos”. Integraram a
intervenção atores e estudantes da cidade e os membros de atuadores do Desvio
Coletivo.
Compunha também a imagem petrificada
uma faixa de gaze sobre os olhos. Deste signo nasceu nossa cegueira física. De
fato, a faixa sobre os olhos já impedia nossa visão periférica e focal, mas,
enquanto imagem, também reforçava outras possibilidades da cegueira que não se restringia
a uma cegueira visual, mas simbólica vivida pelo individuo da cidade: uma
cegueira política e social. O Desvio Coletivo define a performance no site do
trabalho como “uma obra aberta a diferentes leituras: a redução da nossa
existência à função produtiva e ao consumo, o excesso de trabalho, o
aprisionamento e a petrificação da vida, a automatização do cotidiano, a
degeneração ética que se alastra no atual estágio da sociedade” (http://www.desviocoletivo.com/p/performance-urbda-cegos.html).
Esses corpos argilosos saíram às ruas
e percorreram lugares na cidade que são representativos de poder e ordem como
agências bancárias, repartições públicas, espaços comerciais e órgão
reguladores. Sempre que o coro de cegos encontrava-se com estes espaços
instalavam seus corpos adequadamente pelas dimensões arquitetônicas;
integravam-se ao espaço compondo com ele um novo signo. Os corpos pareciam
também produções artísticas, esculturas tridimensionais, ornamentos
arquitetônicos. Esse jogo de adequação ao espaço reflexiona os usos que fazemos
destes espaços políticos e se realmente estamos inseridos no contexto de acesso
e empoderamento dos seus
significados.
Outro importante aspecto da
intervenção urbana é a reprodução de alguns códigos que são feitos pelos performers em referência ao espaço que
se instala, por exemplo, diante das bandeiras nacional e estadual fizemos o
gesto característico de saudação à Adolf Hitler durante a Alemanha nazista e
diante da prefeitura da cidade uma reverência muçulmana. Ao propormos estas
ações percebo que lidamos diretamente com o gestus
social, termo endossado pelo diretor alemão Bertolt Brecht. Vanja Poty
identifica o propósito do gestus
social apontando que:
“[...] a partir do gestus se identifica uma classe (macro), que ator utiliza também alguns gesten (ilustrativos, substitutivos de qualquer outra forma de comunicação), mas não gestikulieren (movimentos para explicitar ou frisar a fala). O gestus não busca o estereótipo, e sim o reconhecimento de uma condição social, de uma profissão, nacionalidade, de valores ou convicções do personagem, ou seja, atitudes-padrão, que irão se consagrar como representação de um povo e de uma época”. (POTY, 2013)
Neste sentido, na performance “Cegos”
proposta pelo Desvio Coletivo percebo uma estreita conexão entre o movimento do
coro e seus elementos fundamentais (corpo petrificado, contexto de trabalho,
cegueira simbólica) como uma expressão concreta de um gestus, e nesse sentido um gestus
que representa um status e um ideal social alienado em si mesmo. Sobre a
relação de gestus e trabalho Brecht
reflete:
“[...] O gesto de trabalhar é sem dúvida um gesto social, pois a atividade humana orientada no sentido de um domínio sobre a natureza é uma realidade social, uma realidade do mundo dos homens”. (POTY apud Brecht, 2005, p.107)
As reverberações da experiência
proporcionada pela oficina com o Desvio Coletivo e posteriormente na
participação na performance “Cegos” estimulam inquietações sobre o papel
sociopolítico da arte na rua, sua relação com o imaginário coletivo e suas
potencialidades no processo de formação do ator/performer. A experiência lida
com o senso crítico, com a reflexão sobre o entorno que vivemos e sobre a
própria vida que deve constantemente ser confrontada com seus opostos, seja
pela observação da arte ou pela participação dentro de suas proposições
poéticas.
Bibliografia
POTY, Vanja. Conceito de gestus e técnica de construção. Revista Performatus. Ano 01. N. 06. Set. 2013. Acesso em:
08/11/2014. Disponível em: http://performatus.net/wp-content/uploads/2013/08/Gestus-%C2%AB-Performatus.pdf
BRECHT, Bertold. Estudos sobre Teatro. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 2005.


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