por Fabrícia Dias da Silva
Licencianda em Teatro UFBA
A Antropologia
Teatral tem se debruçado a investigar as diversas especialidades
disciplinares relacionadas com a representação. Nas obras A Arte
secreta do Ator e A Canoa de Papel o
autor e pesquisador Eugênio Barba
pretende a partir do estudo do comportamento cênico identificar e comparar princípios comuns existentes na
representação, considerando para isso o ator e suas técnicas em um nível
transcultural. Segundo Barba, a Antropologia Teatral é:
O estudo do comportamento cênico pré-expressivo que se encontra na
base dos diferentes gêneros, estilos e papéis e das tradições pessoais e
coletivas […] Em uma situação de representação organizada, a presença física e
mental do ator modela-se segundo princípios diferentes dos da vida cotidiana. A utilização extra cotidiana do corpo-mente é aquilo a que se chama “técnica”.
(BARBA, 1994. p.23)
Barba aponta que o trabalho do ator concentra três
aspectos díspares correspondentes a três níveis de organização. Esses aspectos
referenciam um conteúdo individual do ator e sua inter-relação com a sociedade,
com a tradição cênica e com técnicas transculturais que constituem o campo
pré-expressivo. Assim, os três aspectos citados pelo autor consideram:
1. A
personalidade do ator, sua sensibilidade, sua inteligencia artística, sua
individualidade social que torna cada ator único e irrepetível.
2. A
particularidade da tradição cênica e do contexto histórico-cultural através dos
quais a irrepetível personalidade do ator se manifesta.
3. A utilização do corpo-mente segundo técnicas extra cotidianas baseadas em
princípios-que-retornam transculturais. Estes princípios-que-retornam
constituem o que a Antropologia Teatral define como o campo da
pré-expressividade. (BARBA, 1994. p. 24-25)
Eugênio Barba considera que no processo de
representação do ator convive com diversos níveis de organização. No entanto,
em sua pesquisa a cerca da Antropologia
Teatral Barba aponta que existe um nível
de organização básico que se opera em todos os atores e que seria possível distinguir e trabalhar separadamente os
níveis de organização que constituem a expressão do ator (BARBA,1995,p.188).
O nível básico referido por Barba é definido como pré-expressivo.
O nível que se ocupa com o como tornar a energia do ator cenicamente
viva, isto é, com o como o ator pode
tornar-se uma presença que atrai imediatamente a atenção do espectador, é o
nível pré-expressivo e é o campo de
estudo da antropologia teatral. (Idem, p.188)
O professor Renato
Ferracini em seu livro A arte de não-interpretar como poesia corpórea do Ator, esclarece o conceito de pré-expressividade, colocando-o
como um nível onde o ator trabalha princípios para aquisição da presença cênica,
objetivando a energia e sua manipulação e o desenvolvimento das ações físicas:
[...] pré-expressivo é aquilo que vem antes da expressão, da
personagem construída e antes da cena acabada. É o nível onde o ator produz, e
principalmente, trabalha todos os elementos técnicos e vitais de suas ações
físicas e vocais. É o nível da presença,
onde o ator se trabalha, independente de qualquer outro elemento
externo, quer seja texto, personagem ou cena [...] podemos dizer que existe um nível básico de organização, comum a todos os
atores, e mesmo anterior à expressão em si. A esse nível básico de organização
poderíamos denominar pré-expressividade.(FERRACINI, 2003, p.87)
A pré-expressividade está contida no nível da
expressão ao mesmo tempo que faz-se possível trabalha-la separadamente. Na prática criativa o ator poderá trabalhar os níveis pré-expressivos no
sentido de reconhecer e manipular suas energias, presença e os múltiplos níveis de organização
que envolvem a representação a partir da seqüência de ações físicas e vocais
memoradas pelo corpo-mente, a tal ponto que poderá se repetir essas sequência
espontaneamente pelo ator no instante presente da cena. O nível pré-expressivo
esta diretamente relacionado à aquisição da presença cênica portanto:
[...] é o alicerce do trabalho não-interpretativo, pois é
nesse nível que o ator busca aprender e treinar uma maneira operativa, técnica
e orgânica de articular, tanto suas ações físicas e vocais no espaço como, e principalmente,
sua dilatação corpórea, sua presença cênica e a manipulação de suas energias.
Essa
busca pode dar-se de duas formas: pelo aprendizado de uma técnica sistematizada
e codificada que “ensine e treine” a manipulação desses elementos pré-expressivos,
o que significa deparar-se com uma técnica
de aculturação, como é o caso das técnicas orientais de representação;
ou em uma busca individual que resulte numa pesquisa dos caminhos que levem a
um encontro com suas próprias energias, organizando-as no espaço e no tempo,
por meio de uma técnica pessoal de representação. (Idem, p.88)
Barong and Kris Dance, dança Balinesa . A eterna luta de Barong e Rangda (Indonésia).
Barba nos fala que em todas as culturas é possível
observar o que ele chama de técnica de
aculturação, técnicas corporais específicas que são distintas das usadas na
vida cotidiana. Potencialmente, a técnica de aculturação desarticula comportamentos físicos
que condicionam o ator a estereótipos e investe para construção de um outro corpo, um corpo consciente de suas referências socioculturais mas que se permite experimentar outra relação de composição e atuação no mundo. Processo de busca e observação sobre um processo de
desconstrução do corpo que exige prontidão.
A técnica de aculturação é a distorção da
aparência usual (natural), a fim de recriá-la sensorialmente de uma maneira
fresca e surpreendente. No caminho da aculturação é difícil distinguir o ator
do bailarino.
O ator-bailarino aculturado manifesta uma
qualidade e uma irradiação energética que é presença pronta a ser transformada
em dança ou teatro, de acordo com a convenção ou tradição [...] Tanto a via de inculturação
quanto a de aculturação ativa o nível pré-expressivo: presença pronta para
representar. (BARBA,1995, p.190)
A
técnica pessoal de representação é citada dor Ferracini e refere-se a uma
técnica formulada pelo próprio ator. Neste contexto insere-se a Antropologia
Teatral, que visa impulsionar o ator para princípios embasados em um corpo que busca
o extracotidiano, pensado a partir de um processo de “desaculturação”, processo
de fuga da corporeidade marcada por estereótipos e maneirismos. A técnica
pessoal de representação sugere uma passagem por um treinamento pré-expressivo,
visando a qualidade de energia, do movimento, do bios cênico e o estímulo a criação autônoma. Barba afirma que:
A
análise transcultural mostra que nestas técnicas se podem individualizar alguns
princípios que retornam. Esses princípios aplicados ao peso, ao equilíbrio, ao
uso da coluna vertebral e dos olhos, produzem tensões físicas pré-expressivas.
Trata-se de uma qualidade extra cotidiana de energia que torna o corpo
teatralmente “decidido”, “vivo”, “crível”; desse modo, a presença do ator, seu bios cênico, consegue manter a atenção
do espectador antes de transmitir qualquer mensagem. Trata-se de um antes lógico, não cronológico. (BARBA,
1994, p.23)
Dundubhi Natyam, dança tradicional Mohiniyattam. Performance Deepti Omchery Bhalla (Índia).
Um dos elementos principais que
podem ser percebidos dentro do campo da pré-expressividade é a relação entre
cotidiano e extracotidiano, ou seja,
o movimento carregado de elementos que não se vinculam à forma tradicional pela
qual vemos os gestos. Eugênio Barba pontua a diferença entre a técnica
cotidiana e a técnica extracotidiana.
O nosso corpo é utilizado de maneira substancialmente
diferente na vida cotidiana e nas situações de representação. No contexto cotidiano,
a técnica do corpo esta condicionada pela cultura, pelo estado social e pelo
ofício. Em uma situação de representação existe uma diferença técnica do corpo.
Pode-se então distinguir uma técnica cotidiana de uma técnica extracotidiana.
(1994, p.30)
No corpo cotidiano nota-se uma
postura que acentua-se pelo
princípio do esforço mínimo, ou seja, alcançar o rendimento máximo com o mínimo
uso de energia. Em outra via, a técnica extracotidiana trabalha com o
princípio do uso elevado da concentração de energia, objetivando por vezes o uso máximo de energia para um resultado
mínimo do corpo (BARBA,1994, p.31). Em cena a presença física e mental do ator
modela-se gerando um novo corpo e por conseqüência uma nova qualidade de
energia, energia diferente da cotidiana, dilatada e que engloba todo o corpo.
Outro elemento fluente na pesquisa
de um treinamento pré-expressivo é a energia.
Barba cita vários termos que designam energia no
teatro oriental e nos dá como exemplo a palavra koshi, que no Japão define a presença do ator em cena e refere-se a
uma parte específica do corpo humano: ao caminhar, os atores bloqueiam o
quadril, evitando que ele siga os movimentos das pernas. Dois tipos de tensões
são criados no corpo, na parte inferior as pernas devem mover-se e na parte
superior o tronco e a coluna vertebral força-se para baixo sobre o quadril. Essa ação solicita portanto um equilíbrio peculiar, propondo um tônus muscular diferenciado, a maior concentração da energia e projeta, por consequência, o ator ao a deslocar-se com esforço específico e diferente do qual exerce quando caminha cotidianamente. O uso do koshi gera tensões que condicionam o
corpo do ator a encontrar uma outra maneira de equilibrar-se. Barba sobre a energia nos diz:
A energia do ator é uma qualidade facilmente
identificável. É sua potencia nervosa e muscular. O fato de essa
potência existir não é particularmente interessante, já que ela existe, por definição,
em qualquer corpo vivo. O que é interessante é a maneira pela qual essa
potencia é moldada num contexto muito especial: o teatro.[...] Estudar a
energia do ator, portanto, significa examinar os princípios pelos quais ele
pode modelar e educar sua potência muscular e nervosa de acordo com situações
não-cotidianas. (1995, p.74)
Kalyanasougandhikam, dança Kathakali, tradicionalmente interpretada apenas por homens (Índia).
A pré expressividade talvez não seja visível
em cena, mas é o processo mais intenso do ator, a base sólida da construção, o
que existe de mais presente. Detalhes ajustados em seqüência, em que cada
subconjunto é também um gráfico com seu começo, seu ápice, seu fim e isto de
maneira precisa e fundida através da extracotidianeidade, dos desenhos de
energia e um desenvolvimento orgânico.
Referências
BARBA, Eugenio & SAVARESE,
Nicola. A arte secreta do ator: Dicionário de Antropologia Teatral. Campinas:
Hucitec, 1995.
BARBA, Eugenio. A canoa de
papel: Tratado de antropologia teatral. Trad.:
Patrícia Alves. São Paulo: Hucitec,
1994.
FERRACINI, Renato. A arte de não
interpretar como poesia corpórea do ator. São Paulo: Editora da Unicamp, 2003.
* Os vídeos compartilhados foram retirados da internet e desejam uma observação dos estados corporais e criativos que tanto impressionaram Eugênio Barba na tecitura de sua antropologia teatral.

OLá! Boa noite.
ResponderExcluirMe chamo Edinho do Monte e trabalho com teatro tem por volta de duas décadas, sou diretor e professor de teatro. Tenho aprofundado minhas leituras e referências sobre a Antropologia Teatral e vez por outra esbarro na dificuldade de encontrar autores e referências brasileiras sobre o tema.
Gostaria, se possível for, da ajuda de vcs para me encaminhar, sugerir ou citar: livros e autores nacionais que versam sobre a Antropologia Teatral.
Desde já agradeço, toda e qualquer atenção dispensada a minha pessoa.
A todes minhas saudações.